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Bypass Mighty Sounds Pristine

2006
Bor Land


O que têm em comum as capitais Londres, Paris e Bruxelas e a música dos Bypass? Musicalmente falando, nada. Porém, a todos podemos associar um mesmo conceito: Eurostar. Para as cidades citadas, a palavrinha em questão representa um comboio de alta velocidade que faz a travessia do Canal da Mancha proporcionando uma rede de ligação entre as três. Os Bypass recuperaram o conceito para assim baptizarem a triologia de faixas que constitui um momento chave do álbum de estreia que agora apresentam. Seguimos os trilhos do comboio. Integram a viagem Bruno Coelho (bateria e percussão), Eduardo Raon (guitarra e percussão), Miguel Menezes (guitarra e voz) e Rui Dias (baixo e teclas), os mesmos que em 2001 haviam optado por um trajecto mais curto, que se traduziu no lançamento do EP homónimo. Perante uma segura viagem inaugural, a editora Bor Land resolveu em 2006 apostar numa viagem de longa distância que agora acompanhamos.

Antes de nos apearmos na estação Eurostar fixemo-nos noutras paragens. “Setnov” marca o início da viagem. Apercebemo-nos de que o instrumental chegou para ficar. Há fragmentos sonoros, artilharia propulsora variada e progressões a desembocar em crescendos esperados. Prevê-se um intro mais ou menos estereotipado, não fossem as vocalizações surgirem inesperadamente à passagem do primeiro minuto. A máxima imputada ao bom senso segundo a qual importa saber conter a voz na altura certa e fazê-la ouvir-se no momento oportuno também se pode aplicar aqui. As prestações vocais de Miguel Menezes não devem chocar ninguém por desmérito, mas aparecem por vezes deslocadas, assumindo em alguns casos um carácter dispensável. Tal constitui, no entanto, um mal menor, facilmente ofuscado pelas manobras instrumentais nas quais assenta inequivocamente o trabalho dos Bypass.

Mais adiante paramos em “EU Star”. Somos confrontados com o mesmo regime exploratório a perder de vista, mas vamos igualmente descobrir um cheirinho de folktronica que faz lembrar, especialmente no capítulo das percussões, as paisagens de Minotaur Shock (ouça-se, do projecto de David Edwards, o álbum Maritime com destaque para “Vigo Bay”). “EU Star” dá início à triologia. Dela constam ainda “Tunnel” e finalmente “Ashford”, convertido em single. Para esta faixa, os Bypass inspiraram-se na tradição britânica e fizeram coincidir a referência à cidade inglesa com uma sonoridade que facilmente associamos a terras de Sua Majestade, tendo assim engendrado a criação mais próxima ao formato canção.

Mighty Sounds Pristine é uma estreia em longa duração coesa, espantosamente amadurecida enquanto disco conceptual (voluntária ou involuntariamente). Vive de arranjos, percussões várias, guitarras – com destaque para a Lap Steel que introduz um sinal distintivo no alinhamento instrumental da banda. Apresenta-se com uma natureza bipolar: ora roça o psicadelismo, ora inspira calmaria. E, acima de tudo, dá a conhecer a “espontaneidade afincadamente estudada” (expressão outrora usada por Miguel Esteves Cardoso) dos Bypass. Cumpre. Convence. Se associarmos o nome da banda à operação cirúrgica com o mesmo nome, somos levados a dizer que a operação foi um sucesso.


Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net
14/06/2006