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Chessie Dual Mode EP

2005
Lok Musik / Flur


N√£o convence de imediato a ideia de que pode um comboio funcionar como lamparina dos tr√™s desejos, que, sem sequer necessitarem de uma m√£o que os implore, assumem a forma de tr√™s projectos que apraz ver regressados e reunidos numa rodela. Mas, com quase sempre acontece no caso dos Chessie, o afei√ßoamento √† estranheza ter√° de ser t√£o gradual como qualquer outro processo que procure adaptar-se a temperaturas ou luminosidades de choque. Passo a abreviar em algumas frases o percurso e impacto dos Chessie: na tentativa de tentar explorar uma sonoridade que lhe oferecesse uma palete alternativa √† que explorava nos Lorelei, ocupantes perif√©ricos da Washington D.isC.hord, eis que Stephen Gardner assumiu o disfarce de Chessie e, com isso, um obsess√£o por transportes ferrovi√°rios que se reflecte no carrilamento instintivo de g√©neros que conjuga no projecto. Ap√≥s a entrada de Ben Bailes em 2000 e do lan√ßamento de Overnight - que merecidamente viu ser-lhe prestado um culto que premiava a sua categ√≥rica aptid√£o para ambi√™ncias -, o colosso remeteu-se a uma hiberna√ß√£o de quatros anos no que √† feitura de √°lbuns diz respeito. Contudo, quis a Lok Musik armazenar as pontuais actividades verificadas entre 2001 e 2004 (em termos de originais e remisturas a cargo de externos). Aben√ßoadas sejam as almas arquivistas: Dual Mode n√£o deve em nada ao que de mais marcante se escutou dentro dos g√©neros ‚Äď p√≥s-rock potencializado por aplica√ß√£o de electr√≥nica e electr√≥nica agigantada √† imagem do p√≥s-rock - durante o ano passado.

Para se ter ideia da import√Ęncia dos Chessie na actualidade, basta atender a que pode estar bem presente a sua influ√™ncia no insuflar estilizado que os primeiros Broken Social Scene ou Black Mountain emparelham com as guitarras e instrumentos familiares nos discos que exportam a partir do Canad√° natal. Oi√ßa-se, por exemplo, Underwater Cinematographer dos Most Serene Republic para perceber que a liga√ß√£o n√£o √© meramente especulativa ‚Äď ambos inserem incisivamente o agente digital de acordo com a etiqueta exigida pela ocasi√£o. Pois se cabia √† distor√ß√£o de uma deformidade glitch ampliar o som de um cora√ß√£o inquieto em ‚ÄúProposition 61‚ÄĚ dos Republic, ocupam-se aqui uma m√£o cheia de texturas amplas e crepitantes de anunciar um crep√ļsculo tr√©mulo com ‚ÄúVelvet‚ÄĚ e, atrav√©s disso, reafirmar os Chessie como caprichosos manipuladores que antecipam a chegada da noite conforme a sua vontade. E ‚ÄúVelvet‚ÄĚ √© - isolado ou integrado num conjunto ‚Äď lindo como um √Čden onde coube a um luxurioso tratamento da guitarra morder a ma√ß√£. ‚ÄúThe Century‚ÄĚ ‚Äď a segundas das duas faixas originais inclu√≠das ‚Äď destoa da serenidade son√Ęmbula de Overnight e resulta como se aos Low se pedisse que anunciassem a paz global a partir de um concerto √ļnico no ponto mais alto de Nova Iorque. √Č um daqueles tremores dedilhados em guitarra que mudam a percep√ß√£o que se tem de uma banda. Cheque-mate duplo.

A cargo das remisturas, temos duas figuras de calibre que n√£o se dariam ao trabalho n√£o fosse o material original apetec√≠vel. Jimmy Tamborello ‚Äď numa preciosa oportunidade de escut√°-lo ao comando do projecto DNTEL - recupera ‚ÄúEyes and Smiles‚ÄĚ ao j√° referido Overnight (a que Dual Mode parece servir de extens√£o) e trata de lhe conferir uma pinta ‚Äúmaior que a vida‚ÄĚ com ornamenta√ß√£o sinf√≥nica e avalanche ‚Äúdreamy‚ÄĚ que os Pluramon n√£o deixariam ao abandono. Depois, temem pelo pior os parafusos do comboio assim que se atreve o seu sistema sonoro a anunciar: "Pr√≥xima paragem: remistura de "Daylight" a cargo da debulhadora Sutekh (Seth Horvitz, quando em fam√≠lia)." A mesma que j√° havia sido inclu√≠da na primeira de duas compila√ß√Ķes de remisturas, lan√ßadas pela Leaf em 2005, passa aqui a auferir de contexto que lhe real√ßa a grandiosidade. "Daylight" deixou de ser o piquenique celestial que contava com uns ferrinhos por si s√≥ capazes de rasgar sorrisos e com uma tradicionalidade sem fronteiras a que n√£o destoaria a anexa√ß√£o da voz de Ant√≥nio Varia√ß√Ķes. Passou a ser uma cerrada derrocada s√≥nica muito pr√≥xima de "Wings Over Kansas" (que j√° conclu√≠a Fell em tom de intemp√©rie). Ambos s√£o momentos maiores em termos de revela√ß√£o e esplendor.

A verdade é que, antes de sequer haver cumprido metade da sua duração, Dual Mode já tem como preenchidos os requisitos atmosféricos que se exigem de um EP. Como se, por reacção à passagem do ano novo pelos vários fusos horários do globo, se sucedesse um habitante de Miami já estar a arrotar ao champagne que o congénere de Sidney ainda não abriu. O eclipse verificado em Dual Mode cega ao ponto de distorcer a noção do tempo. Avança imparável uma locomotiva em forma de bala apontada aos sentidos. O que vier a verter ao orifício daí resultante pode bem servir de recheio a expectativas já existentes. Aguarda-se com ansiedade pela passagem dos comboios que se vislumbram ao reflexo desta discreta pérola.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
01/05/2006