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Sondre Lerche Faces Down

2002
Astralwerks


Poucos duvidarão da teoria segundo a qual a infância rege inexoravelmente os rumos pelos quais a vida de um indivíduo logra enveredar. Aos oito anos Sondre Lerche atribui à guitarra o estatuto de companhia favorita, descobrindo na composição o seu entretenimento predilecto. Com a idade de catorze anos, Lerche vê surgir a sua primeira grande oportunidade de dar a conhecer publicamente a sua precoce veia musical. Na sua Noruega natal, o aficcionado compositor começa a tornar-se presença assídua como músico num bar local onde trabalha a sua irmã. Dessa experiência terá resultado certamente uma naturalidade estudada no contacto com o público, na aproximação aos destinatários das suas criações. A determinada altura é já a figura de um produtor que se rende para poucos anos mais tarde ver a luz do dia o primeiro álbum editado, Faces Down. Corria o ano de 2001, Sondre Lerche contava com 19 anos.

À primeira audição, o álbum de estreia deste norueguês deixa resvalar uma sonoridade delicodoce, paredes-meias com o encantamento folk. Não tarda, contudo, a constatação de que o cruzamento de influências não se esgota aqui. Lerche não opta por melodias de refrões particularmente orelhudos, mas também não se poupa a composições facilmente cantaroláveis como “You Know So Well” ou “Sleep on Needles”, à laia de incursões pop. Aqui e ali, Faces Down é bossa-nova jazzística, em registo pseudo-retro pouco convincente.

Aos 19 anos, Lerche arriscou mesmo contrastar o seu aspecto de adolescente franzino com uma voz amadurecida antes do tempo, a querer encenar irrepreensível segurança. E acontece que não é mal sucedido. Como também acabou por ser feliz no recurso a coros e vozes femininas de embalar a pairar sobre algumas faixas. São injecções de atmosferas coloridas num disco pejado de pretensões. Após ter convencido a Noruega, o ano de 2002 traria ao estreante nórdico uma aura de promissora revelação por toda a Europa que assistiu ao lançamento do álbum de estreia. Ao mesmo tempo projectava-se a imagem do jovem talento do songwriting.

Ciente da inspiração externa que reuniu ao longo dos anos, Lerche não renega as influências do seu percurso. Como jovem atento, o norueguês cedo se apercebeu dos músicos que lhe serviriam de modelo. O resultado final ilustrado neste Faces Down levar-nos-ia a concluir que os conterrâneos Kings of Convenience poderiam ter lugar no seu leque de referências. Mas, estranhamente, é nos A-Ha que é depositada a marca de fonte de inspiração. Acontece que, ao recordarmos os ícones da música norueguesa de 80, vem-nos à memória uma formação que, ao tentar espreitar o songwriting digno de registo, caiu na armadilha do pastiche radiofónico. Daí que fiquemos sem saber se Lerche pretendeu fazer um update de luxo à sonoridade dos seus ídolos ou, pelo contrário, enterrar o passado estóico dos mesmos. Talvez tenha pesado na sua mente uma espécie de genealogia musical que eleva aos píncaros o trio norueguês responsável por vendas majestosas além-fronteiras. Certo é que, no fim das contas, Lerche permanecerá, por enquanto, no círculo restrito de ouvidos atentos às tendências que se revelam sem fazer barulho.


Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net
29/09/2005