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Mayday Bushido Karaoke

2005
Saddle Creek / Ananana


Bushido Karaoke contradiz-se logo no título. Mesmo antes de se revelar, decepa quase pela raiz quaisquer vestígios de seriedade. Isto porque Bushido designa o código tradicional do samurai, assente sobre a honra, autodisciplina, bravura e humildade. Por sua vez, a palavra Karaoke surge quase sempre associada à falta de dignidade, indisciplina induzida por um avançado estado de embriaguez, convite à imbecilidade colectiva e total ausência de pudor quando chega a altura de imitar o timbre de Bryan Ferry (sem esquecer a rosa por cima da orelha) ou simular a reunião dos Wham. Ainda que se digne a momentos memoráveis, não há mão que procure um lugar para Bushido Karaoke na prateleira de discos sem o confrontar com um piscar de olho que lhe comunique: “Maroto! Apanhei-te a brincar aos clássicos. Vais de castigo para o lado do Brian Setzer.” O terceiro disco dos Mayday (batalhão indie comandado por Ted Stevens) encontra a pandilha Saddle Creek perdida entre os caprichos do submundo karaoke. Fosse este mais um disco dos debochados Me First and the Gimme Gimmes (mestres na arte da destruição através da apropriação) e o mais certo era ninguém ligar muito.

Se a ambição de Bushido Karaoke passa pela romaria aleatória de uma noite de copos, temos aqui clássico na categoria “vale tudo menos baladas sobre divergências entre gerações”. Não me parece que alguém queira reviver o pesadelo Staind. O que importa agora é recuperar – mesmo que com a subversão dos Belle & Sebastian - a ingenuidade dos passeios a seguir às aulas e a sensação de descoberta das primeiras trocas de saliva contra o muro traseiro da cantina.

O mais bizarro e criativamente empolgado disco dos Mayday encontra Ted Stevens disposto a prestar tributo à geração greaser e aos seus heróis folk sem temer tropeçar em direcção ao alçapão kitsch. Não se duvide das boas intenções do rapaz. A cada exaltação da época dourada, Ted Stevens demonstra ter unha afiada para a tarefa: o doo-wop de “Pelf Help” faz estalar os dedos em sincronia com a balouçar de uma cintura rebelde, “Standing in Line at the Gates of Hell” podia ser uma cover dos Calexico amanhada pelos geniais Tenacious D, “Old World New World” é tão contagiante e improvável quanto o próprio disco, além de contar com um triunfal banjo capaz de unir nações inimigas (como aficionados e detractores de Beck). Eis as armas de destruição que procurava, Mr. Bush. Neste caso, prontas a cumprir funções pacificadoras.

Mayday, mayday. Compostura indie abatida.” Entre as casualidades, qualquer lógica capaz de advinhar o próximo passo aos Mayday e uma respeitável linhagem – iniciada no primeiro Old Blood - multigolpeada pela catana da nostalgia. Quando é praticamente impossível adivinhar a direcção estilística à música que se segue, muito mais será arriscar profecias em relação ao próximo disco. Bushido Karaoke é um despreocupado harikiri levado a cabo por uns Mayday que morreram a rir na cara das expectativas. Recomenda-se a cultivadores de um refinado gosto mórbido pelas décadas da brilhantina no cabelo e Cadillacs no drive-in. Os restantes devem aguardar pela ressurreição.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
29/07/2005