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Complicado Haunted

2005
Bor Land


O pa√≠s perdia-se em l√°grimas a cada vez que Toy anunciava a hora de conhecer novos desenvolvimentos ao drama das g√©meas que o destino quis ver afastadas at√© ao dia em que o hor√°rio nobre as uniu. Perante o vibrato inconfund√≠vel com que Toy cantava o ‚Äúsentiiiiiiiir‚ÄĚ que ditava o fim a ‚ÄúOlhos de √Āgua‚ÄĚ - o t√≠tulo do tema-gen√©rico e da telenovela -, o p√ļblico quase se sentia obrigado a ceder incondicional margem de susceptibilidade e paci√™ncia ao jardineiro conhecedor do segredo de fam√≠lia, grisalhos entraves ao desfecho previs√≠vel da intriga e a um d√©bil processo de montagem que permite a uma √ļnica actriz desempenhar dois pap√©is diferentes numa mesma cena. Se tudo isso √© pornografia, Haunted - o disco de estreia de Complicado - revela-se, √† medida que o soalho fica gasto, um sublime esp√©cime de erotismo, enquanto representa√ß√£o meramente sugestiva do que pode arriscar a banalidade e caricatura quando demasiado ampliado. Neste caso, a variedade de sentimentos percorridos ao longo de uma rela√ß√£o revelada apenas no seu enquadramento dom√©stico. Os restantes epis√≥dios ‚Äď ocorridos al√©m de quatro paredes - ficam a cargo da imagina√ß√£o e perspic√°cia de cada um para adivinhar desfechos.

Por isso, Haunted funciona como um mecanismo aleat√≥rio de complementos ocultos, situa√ß√Ķes caseiras a que acedemos durante o seu pico de intensidade e as respectivas consequ√™ncias directas ou a prazo. A partir do segundo andar da baixa portuense onde a totalidade do disco foi gravado, Miguel Gomes elabora um atlas sentimental que tem por coordenadas os filtros aplicados a algumas das vocaliza√ß√Ķes e na simplicidade das quatro pistas a escala ideal ao pacto desenvolvido com ‚Äúa visita‚ÄĚ, convidada a assistir aos reveses da vida conjugal em forma de alegorias confessionais.

E, tal como um epis√≥dio de Sete Palmos de Terra (um dos links de www.complicado.net aponta para a s√©rie) que come√ßa em comunh√£o e termina em turbilh√£o ou vice-versa, tamb√©m Haunted vive assombrado pela amea√ßa da instabilidade e incerteza empolgantes. Da√≠ que ‚ÄúTonight‚ÄĚ n√£o se acanhe na altura de reproduzir ‚Äď numa inflamat√≥ria introdu√ß√£o blues que muito agradar√° aos f√£s dos Gomez dos primeiros discos - a erup√ß√£o do protagonista masculino prestes a dar o bra√ßo a torcer numa discuss√£o e, logo de seguida, ‚ÄúSad Summer in Mindelo‚ÄĚ tudo resolva numa delico-doce (elogio) can√ß√£o de embalar que n√£o destoaria se inserida no report√≥rio de Nicolai Dunger. Arquitectado √† regra e esquadro de uma cada vez mais apurada est√©tica Bor Land (o recorrente Paulo Miranda tratou da masteriza√ß√£o), Haunted √© um apartamento revestido de arte espont√Ęnea (‚Äúdois ou tr√™s acordes e nenhum refr√£o‚ÄĚ serve de inspira√ß√£o a isso mesmo), apontamentos lo-fi espalhados sobre camas por fazer e uma segunda superf√≠cie composta por ambi√™ncias extra√≠das √†s diversas divis√Ķes. Por afinidade tem√°tica, √© a sequela l√≥gica do brilhante (e t√£o mal estimado) Room Without a View dos Slamo.

Complicado ser√° manter o CD num dos dois suportes apropriados para efeito. Isto porque vai ficando folgada a cartolina que no reverso oculta a planta do apartamento imagin√°rio. √Č, de facto, complicado manter a curiosidade do voyeur afastada desses simbolismos rec√īnditos e longe do leitor um disco que revela detalhes in√©ditos a cada vez que √© revisitado.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
29/06/2005