bodyspace.net


Bohren und Der Club of Gore Geisterfaust

2005
Wonder Records


S u s p e n s e.

Já espraia ao ouvido a livre profusão de éter a ser escutado passivamente. Geisterfaust quer as suas presas anestesiadas, desarmadas, prontas a assimilar beatificamente o evangelho da hipnose a conta gotas. Os sentidos cedem à densidade como ao relógio suspenso que oscila. Neste caso, entre a permanente ameaça de silêncio e uma nota adicional - requerente do tempo que a impaciência lhe permitir a encontrar encaixe no código genético da besta desfigurada pela inércia. Esse animal pode bem ser a mais brutal das faixas hardcore (onde os Bohren cumpriram percurso académico), tal como não parecerá descabido se o tomarmos por sumário digestível do que a banda alemã tem por infinito. Já diziam os Ramones: ”As nossas músicas são longas. Nós é que as tocamos muito rapidamente.”. A penosa lentidão com que Geisterfaust progride faz do tédio um novo método de descoberta.

Todos os trocadilhos entre bored(aborrecido) e bohren são fáceis, mas aceitáveis. O conceito que orienta o disco vem ao encontro da tendência para a charada: Geisterfaust significa – em alemão – “punho espiritual” / “o punho-espírito” e o título de cada uma das suas faixas corresponde a um dedo da mão. Acrescente-se a isso a sufocante introspecção percorrida a dois tempos e uma faixa que dura mais de 20 minutos, e a perversão de cada um fará com que a imagem resultante não diste muito daquela que fez esbugalhar os olhos de uma Brooke Shields inocente nesse pedaço de nostalgia que é A Lagoa Azul.
Geisterfaust decepa e vende aos retalhos a perfeição de Pi, é caixinha de música a precisar de corda, o punho que embala o berço (era inevitável) e, sim – reclama o Sting -, obra-prima do pós-rock tântrico.

Como conter então o torrencial de sensações à flor da pele? Através da mestria da subjectividade, tal como herdada ao cinema de Hitchcock. Quando discos anteriores como Gore Motel ou o colossal Midnight Radio ameaçavam sangue criminoso a qualquer instante, Geisterfaust parece fazer com que a extinção de tudo o que verdeja dependa do equilíbrio de uma gota de suor perdida no dilema que a separa do chão. Ao permitirem apenas a manifestação esparsa (mas determinada) ao teclado, guitarra e bateria, o quarteto de Colónia (Alemanha) serve em câmara lenta qualquer coisa de inevitavelmente cósmico. Obriga-nos a testemunhar uma conspiração (e a pactuar com esta conforme a aceitação) a partir da perspectiva da mosca na parede.

O segredo está nos dedos. Experimente o leitor cerrar o punho e soltar os dedos de acordo com a ordem proposta pelo disco: indicador, polegar, anelar, médio, mindinho. Dará conta de que o anelar força à libertação do médio e mindinho. Medeia um encadeamento e serve de chave ao mistério que intercala. No apogeu da insuflação auto-estimulada, Geisterfaust parece suplicar pela forma gasosa que lhe permitirá a fusão com o éter. A flor que desabrocha (na capa). O foguete prestes a saciar a piromania. Cede à combinação 666 a mala que transportava a alma de Marsellus Wallace em Pulp Fiction. Sobra o espanto estampado no rosto de quem a contempla e a incerteza no pensamento de quem testemunha a cena na terceira pessoa. Geisterfaust é o enigma do ano. Ou seja... d o a n o.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
21/05/2005