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The Unplayable Sofa Guitar Rocky Grounds, Big Sky

2005
Bor Land


Dita aquela máxima associada ao cinema que, para fazer um filme, basta apenas uma mulher e um revólver. Quer isso dizer que ao sustento da intriga chegam a sedução e o crime, uma femme-fatale e um homicídio. Certo. Hollywood habituou-nos a essa fórmula desde sempre. De modo a atraírem os transeuntes até ao seu universo retro-western, os Unplayabale Sofa Guitar fazem constar desta segunda longa-metragem os elementos essenciais: as armas de fogo escondidas debaixo da cama e a protagonista feminina que, ao invés de seduzir com um descruzar de pernas escandaloso, fá-lo através do carisma e disposição inata para o conto. Rocky Grounds, Big Sky beneficia de uma alma que o impede de falhar.

Torna-se improvável o descarrilamento da música, quando esta carrega um conceito sólido e credível na forma como emula a América que conhecemos das baças fotografias a preto-e-branco. À semelhança da farsa engendrada pelos And You Will Know Us By The Trail Of Dead para o seu mais recente disco, os USG dão-se ao trabalho – no material promocional que acompanha o lançamento - de encarnar os personagens a que dão voz e ressuscitam através dos instrumentos característicos da época. O que podia ser uma distracção e forma de encobrir a falta de conteúdo, frisa a aura essencial à fantasia temporal que os Sofa Guitar procuram criar na sua música. E, quando as canções funcionam ao ponto de desarmarem, pouco importa se a sonoridade encaixa ou não no desígnio alternative country, até porque o que aqui se escuta pode bem produto de um código genético herdado ao fado quando exposto à realidade (virtual) do Mississipi.

É sabido que o primeiro disco homónimo resultara de um exercício laboratorial ao qual o mentor Paulo Miranda ia adicionando gradualmente o contributo de 14 músicos (mais uns quantos e igualavam a marca recorde detida pelos Polyphonic Spree). O colectivo assumia-se, desde a sua fundação, mais como um projecto virtual do que como uma banda fisicamente convencional – aquela que se desdobra em concertos e mantém uma formação mais ou menos rígida. Rocky Grounds, Big Sky vem limitar a dispersão de talento e frisar os dotes dos três membros agora nucleares: Ana Figueira (alma candente e dona de uma voz que se recebe no coração como um familiar querido), Francisco “Old Jerusalem” Silva (irrepreensível na forma como assina as guitarras com o storytelling que lhe é reconhecido) e Paulo Miranda (o experiente artificie que ilustra o livro com ressonâncias e brandas texturas). Ganha com isto a coesão e a profundidade conceptual.

Com a descontracção de quem espera que os anos passem sobre o whiskey, a banda dá início ao disco com um clássico instantâneo – “Dad’s Guns” agradaria aos puristas como aos novos entusiastas. Perdem-se em cortesias nostálgicas a guitarra e piano, enquanto Ana Figueira dá voz a um daqueles diamantes (sulista, neste caso) que dispensa Globos de Ouro para se afirmar como uma das grandes canções do ano. Rocky Grounds não se fica pela introdução avassaladora e, embora acuse alguma saturação a meio caminho, mantém-se continuamente firme na missão de remeter para outros tempos, sem nunca soar a datado. Como se Kristin Hersh (uma das musas-maiores da 4AD) se tivesse juntado às Be Good Tanyas (caso sério do revivalismo folk) para, em comunhão criativa, homenagearem as raízes fundadoras dos respectivos projectos.

Quando, já bem perto do cair do pano, "Unless..." ameaça a possibilidade do céu desabar, quase parece que somos sugados para dentro de um pesadelo exorcizado por PJ Harvey sobre as palhas pontiagudas de um estábulo. Porém, um disco como este só poderia terminar com a promessa de serenidade - fotografada à imagem de Dias de Paraíso, a obra de Terrence Malick que elevou os campos de feno e o pôr-do-sol canadiano a património mundial. Ficam as saudades dos primeiros passos à beirinha do riacho e uma enorme vontade de conhecer a conclusão para todas as narrativas que os Unplayable Sofa Guitar deixam em aberto.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
10/05/2005