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Jega Spectrum

1998
Planet Mu


Load “ ”. Há bem pouco tempo surgiu no Pitchfork uma coluna que apontava a actual indústria dos videojogos como o meio mais propício à conduta e estética punk, muito mais como indutora de manifestos personalizados do que como montra para penteados surpreendentes ou pins coloridos a preto e branco. O artigo unia as mãos e orava pela intervenção de um Steve Albini do software. Na verdade, revelava o escriba um saudosismo face a tudo o que ainda jaz soterrado abaixo da lápide de inércia que, por conveniência ou falta de unhas para esgravatar, se cravou no peito da década de 80. Falta aos videojogos de hoje, tal como a muito subproduto discográfico, a alma e posicionamento de guerrilha que fez de programadores de música como Jonathan Dunn ou Ben Daglish educadores invisíveis. Forçosamente pioneiros do lo-fi por obra de falta de meios, tais programadores aproveitavam a distracção dos dedos assentes nas teclas O P Q A Space de um Spectrum ou Commodore 64 para subliminarmente estabelecerem a ponte entre o minimalismo “kraftwerkiano” e a electrónica tal como instaurada por Aphex Twin. Jega parece ciente disso e Spectrum é crónica desse processo.

Quando a maior preocupação de um criativo assenta no superar ou encobrir de limitações técnicas (programar num Spectrum não era fácil, acreditem), torna-se natural o seu alheamento perante formalidades secundárias como a obrigação perante o género ou a originalidade. Se o caso fosse o de um jogo de Strip Poker na companhia de uma tosca representação virtual de Samantha Fox, o importante era insinuar o ambiente de engate através de uns órgãos foleiraços. A coisa podia até assumir uns contornos de Serge Gainsbourg, mas certamente que ninguém repararia nisso enquanto os olhos estivessem bem assentes numa Samantha Fox à beira da penhora da última peça de vestuário. À margem dos direitos de autor, a primazia concedida à simplicidade faculta margem de manobra suficiente a uma disposição b,a,ba (mas não estática) e veda a entrada a qualquer apreciação mais analítica ou comparativa. A mecânica de jogo que se vai tornando mais difícil à passagem de cada nível, corresponde, no modus-operandi de Jega, à textura basilar (geralmente um “loop”) a que vão sendo acrescentados ritmos justapostos e sintetizadores angulares.

Pela forma como armazena e estratifica a memória auditiva da pré-história dos videojogos, Spectrum divide-se numa metade conceptualmente insular – a que tem o pixel por Meca - e noutra a que tal fonte só recorre de forma muito subtil (“Red Mullet” e “Gemini” surgem desenquadrados). Sem fazer denotar a mínima preocupação perante qualquer escolástica dominante ou cumprimento de protocolo (eis a marca da veia punk), Jega assume-se criativamente balanceado para a projecção de mosaicos adequados a um boneco que engole moedas entre plataformas ou à nave que aproveita o momento de fragilidade do boss para largar as bombas acumuladas ao longo do nível. Dylan Nathan – o músico de Manchester que assina sob o desígnio de Jega – reaproveita um legado musical mumificado desde a instalação das plataformas 16-bit, reaviva o imaginário de milhões de nostálgicos de clássicos como Manic Miner (aqui homenageado em “Manic Minor”) e atreve-se a servir tudo isso em formato dançável, de forma a que a matéria refeita surja atraente e contagiante em vez de datada. Apetece dizer:” Eu ainda sou do tempo em que um jogo demorava 10 minutos a entrar, mas agora não me acanho de ao som dançar.”.

Sim, Spectrum valida o seu duplo sentido por ser representativo do espectro da electrónica britânica de finais de 90. Muito mais do que um apontamento significante na área do electro ou drum n’bass (também o é), o portento de polivalência resulta num último suspiro do underground sinclair (a ilustração que lhe serve de capa equipara O Grito de Munch a esse suspiro). Não terá sido determinante (nem nada que se pareça) para qualquer novo rumo que se pudesse adivinhar à electrónica de então, mas é dono de um estatuto preciosamente raro pela forma documenta o cyber-romantismo surgido algures entre a esgrima verbal de Monkey Island e o marco Matrix. ENTER.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
10/05/2005