Algo de extraordinariamente terno como um casal em harmonia vegetariana envolve-me calorosamente. Nada me insufla tanto o optimismo como assistir a duas pessoas na partilha de brĂłcolos salteados, arroz integral e chamuças de soja. Momentos como esses deixam-me com vontade de plantar uma árvore e abraçar os vizinhos de que menos gosto. Partilhar de uma resolução minoritária Ă© em si romântico, e os Aberfeldy tĂŞm perfeita noção disso, pois fazem mĂşsica para aquela grande minoria de pessoas que, ao serem atingidas na carola por um disco de Frisbee, passam a ver tudo a cor-de-rosa. Tivesse eu escutado este diamante num dia sombrio e o mais provável seria a sua desintegração contra um poster do Kevin Costner a que costumo fazer pontaria com iogurte. NĂŁo foi isso que aconteceu, já que cedi prontamente Ă insustentável leveza pop de Young Foverer e a minha vida melhorou desde aĂ.
Além do mais, não conheço forma de virar as costas a um disco cujas primeiras palavras sejam:”I love everyone / everybody underneath the sun.. Torna-se espontânea a redenção perante tal slogan “hippie”. Os escoceses Aberfeldy (nome de um popular destino de férias) são desavergonhadamente solarengos , convertem todos os dias em memoráveis domingos com aquela despreocupação insular de quem é imune à sobranceira inveja dos “caretas”. Mantendo a devida distância do ponto de saturação, cometem a proeza de produzir música sedutora sem deixarem cair o véu virginal. Os pontos em comum com os compatriotas Belle & Sebastian (o termo de comparação primário) ficam-se pela vertente falsamente ingénua que associa ambos os colectivos. Tematicamente, Young Forever encontra-se muito mais próximo dos Blur de The Great Escape ou do primeiro disco dos Rentals. Na sobra de etiquetas como “chamber pop” ou “twee”, eis novas soluções criativas para categorizar a música dos quinteto de Edimburgo: rock vegetariano, pop ajardinada, folk pós-laboral e tudo o que sol bem entender e permitir.
Aquele que Ă© um dos mais auspiciosos primeiros discos de um passado britânico recente, ostenta, a mĂ©dia profundidade, um tipo de encanto que pode apenas resultar da conjugação ideal entre tratamento cuidado, pozinhos de maravilha e condimento caseiro. Para este Ăşltimo elemento muito contribui a produção de Jim Sheridan, que optou por captar tudo usando apenas um microfone, de maneira a sorver a intimidade e fugacidade do momento que deixa de o ser assim que alguĂ©m pressiona a tecla “stop”. Sheridan Ă© o lepidopterologista de melodia, o microfone isolado Ă© o seu camaroeiro e Young Forever vistosa peça de colecção a colocar na parte mais visĂvel da prateleira. Borboletas como “Friend like you” (o “flirt” conduzido por ĂłrgĂŁo repescado de lixeira e xilofone-laçarote) e o single “Love is an Arrow” sĂŁo de uma raridade pouco usual e merecem ser expostas a um pĂşblico vasto. Já “Summer’s gone” Ă©, sem rodeios ou reticĂŞncias, uma das mais majestosas mesclas pop a surgir em cena ultimamente – bossa-nova matinal, reggae de armário, Badalamenti perdido entre os girassĂłis. Tudo isto em 3 minutos e meio orquestrados por um ritmo “bem gostoso” (como alguĂ©m lhe chamava há alguns dias).
Aos inquisidores que acharam descabida a ilustração presente na capa (um par de criaturas leoninas em pleno acto sexual), deixo apenas um conselho: prestem maior atenção Ă afrodisĂaca lĂrica de Riley Briggs. NĂŁo Ă© por acaso que o disco merece honras de selo “Parental Advisory”. Limita-se o principal compositor a editar em montagem o conteĂşdo explĂcito atĂ© ao ponto de ter em mĂŁos um filme “softcore”. Young Forever Ă© isso mesmo: uma comĂ©dia juvenil onde o sexo surge sempre subentendido.
Homem abatido. A casualidade Ă© escriba rendido. O Ăşnico defeito de Young Forever acaba por ser resultado de uma infeliz coincidĂŞncia: o seu tĂtulo Ă© demasiado semelhante ao de um insuportável filme em que Mel Gibson Ă© congelado para despertar dĂ©cadas depois. Imagine o que seria das gerações futuras Ă mercĂŞ de mais Ă©picos de fĂ© como aquele em que está a pensar. O melhor mesmo Ă© pensar na possibilidade de Young Forever chegar Ă s mĂŁos da juventude que ainda há duas linhas estava condenada. Ficariam assim a conhecer o melhor disco pop de 2004.