bodyspace.net


Tortoise Standards

2000
Thrill Jockey


Falar nos Tortoise √© falar da ponta mais vis√≠vel de um imenso iceberg de m√ļsicos de Chicago rotulados como √≠cones do post-rock. Com efeito, embora os Tortoise se centrem na figura do genial baterista John McEntire, √† sua volta gravita um sound-system que proporcionou experi√™ncias t√£o interessantes como os Isotope 217 ou os The Sea And Cake.

Standards representa todas as investiga√ß√Ķes sonoras alcan√ßadas ao longo dos doze anos de exist√™ncia dos Tortoise, percorrendo atmosferas sempre inquietantes e nunca nos deixando respirar, e sempre com o travo dissonante que os caracteriza. Definir este √°lbum como jazz ou electr√≥nica seria castrador, devido √† imensid√£o de estilos e recursos usados.

Come√ßando com um prolongado z√©nite de bateria e guitarra quase a fazer lembrar qualquer jam session de Jimi Hendrix, Standars parte para um jogo sonoro muito tenso, sempre evitando batidas simples ou melodias catchy. Pelo contr√°rio, existe uma aproxima√ß√£o ao free jazz, ao improviso conjugado com a repeti√ß√£o, quase obsessiva, de motivos mel√≥dicos, √† disson√Ęncia, e que afasta os Tortoise da especula√ß√£o de um rumo tomado em direc√ß√£o √† electr√≥nica europeia de √≠ndole mais experimental, como os Mouse on Mars ou Autechre.

No entanto aparecem momentos soberbos de acalmia (Firefly - n√£o esquecendo a refer√™ncia amb√≠gua ao Rock Progressivo e ao Jazz de Fus√£o no final), pontuados por notas soltas da guitarra de Jeff Parker, em perfeita sintonia com o resto dos Tortoise. Impressionam as subtilezas mel√≥dicas subjacentes principalmente √† rela√ß√£o baixo/ guitarra/ vibraphone, e a riqueza de texturas do √°lbum, sem no entanto perder um sentimento de tens√£o sempre evidente. A m√ļsica dos Tortoise n√£o nos deixa pensar (porque j√° √© ela pr√≥pria um fio de pensamento), infiltra-se lentamente e mergulha-nos num estado de hipnose(Eden 2- t√£o pr√≥xima dos Massive Attack de Mezzanine). Aparecem tamb√©m momentos de delicada descontrac√ß√£o - sempre entrecortadas por sons obscuros e dissonantes - mais pr√≥prios de um √°lbum de The Sea and Cake (Six Pack), mas sem qualquer vest√≠gio da alegria realmente contagiante destes - quase como se essa descontrac√ß√£o fosse terrivelmente c√≠nica, quase sarc√°stica, como contraponto √† frieza do resto de Standards.

√Č igualmente essencial referir BlackJack e Monica, devido √† surpresa parcial que elas representam. A primeira basicamente pelo elevad√≠ssimo tempo e pela fant√°stica linha de baixo, que seduzem imediatamente... Mais estranha √© a entrada de Monica, que soa a tudo menos Tortoise, parecendo mais um sintetizador de um Top Hit dos anos 80, convertendo-se por√©m, √† medida que a m√ļsica evolui, para um momento algo singular em Standards...

Speakeasy é um momento de introspecção sonora, onde se deixam os instrumentos falar - aliás, num álbum puramente instrumental, é crucial a expressividade dos instrumentos, e é aí que Standards é tão essencial...na linguagem tão clara da guitarra ou da bateria, e como cada nota representa uma palavra...

Para quem quiser saber mais:
Mogwai - "Young Team"
Massive Attack - "Mezzanine"
Mouse on Mars - "Ideology"
Stereolab - "Sound-Dust"


Nuno Cruz
29/07/2002