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William Shatner Has Been

2004
Shout! Factory


Desde o princípio dos tempos que o Homem vive fascinado pela morte. A Morte. Ninguém sabe o que é a morte. Desde sempre que se criam teorias sobre a morte, a religião surge de uma necessidade de explicá-la. Uma figura assexuada, branca, com um robe preto e uma foice que vem ao mundo dos vivos chamá-los. É com essa figura que Max Von Sydow joga xadrex n'"O Sétimo Selo", de Ingmar Bergman. Também é representada de outras formas. Em "Meet Joe Black", de Martin Brest, Brad Pitt humaniza a figura da morte. Esta chega mesmo a apaixonar-se. Até os vampiros ou os zombies, os mortos-vivos, que aparecem na literatura e no cinema, representam de alguma forma esta entidade. A figura do Drácula, presente em Nosferatu, de FW Murnau tem um aspecto sombrio. É branca e usa também um robe preto. Perante estas representações da morte, não há nenhuma certeza. Há só uma coisa que sabemos na morte - e até na vida - uma única coisa: é que todos a conheceremos, mais cedo ou mais tarde. Sempre houve, da parte de quem escreve este texto, uma obsessão com as idades, talvez pela sua juventude. Não sei, há qualquer coisa no medo da morte que nos faz pôr questões como: "Que idade tinha?"; "Quantos anos tem?"; "Tão novo!"; "Tão velho!" E para quê? Ninguém sabe ao certo. Eu, pelo menos, não sei.

William Shatner tem 72 anos, feitos este ano. Ben Folds agora tem 38 anos. Ambos tiveram carreiras bem sucedidas, duradouras. É claro que é estúpido comparar as décadas da carreira de William Shatner com a década da carreira de Ben Folds, mas é inegável que ambos já não são quem eram quando começaram a ficar conhecidos pelo público. O primeiro já não é o Capitão James T. Kirk da série de culto Star Trek e o segundo já não é aquele tipo esquisito que toca piano e canta nos Ben Folds Five com um fascínio pelo Elton John. Juntaram-se uma vez, quando Ben estava a gravar um disco - Fear of Pop, Volume 1 - e a colaboração resultou. Há que dizer que William Shatner é um actor, não é um cantor, nem um músico. Há também que deixar bem claro que já se tinha metido no mundo da música, há mais de 30 anos. Só que dessa vez eram versões "spoken word" de clássicos pop, e toda a gente gozou com ele. Um septuagenário normal é suposto estar fisicamente debilitado. William Shatner não é um septuagenário normal. Aos 72 anos, qualquer pessoa estaria num lar, passando os últimos anos da vida a resmungar ou a jogar à sueca com companheiros da tropa. Em vez disso, grava um disco, faz uma digressão, e ainda tem tempo para gravar anúncios e ganhar um Emmy pelo seu papel numa série televisiva.

O que nos leva a Has Been, surpreendentemente um dos discos pop do ano. Não era suposto resultar. Um velhadas que nem sabe cantar a gravar um disco. Claro, um gajo que fez o Star Trek não pode ser levado a sério. Mas, no capítulo final da sua vida, Shatner quer deixar bem vincado quem é, quem um dia vai deixar de ser. Não quer emendar os erros, resolver o passado. Quer simplesmente mostrar que, como toda a gente, é humano. Real. Existe. É uma pessoa, como todas as outras. Mas as pessoas insistem em lembrar-se dele como James T. Kirk, amigo do tipo das orelhas pontiagudas (Leonard Nimoy, Mr. Spock). E, como bom entertainer, quer entreter. E é isso que faz em Has Been. "But I eat and sleep and breathe and bleed and feel / Sorry to disappoint you / But I'm real", diz tudo. É o último tema, uma colaboração country com Brad Paisley. Fala de como toda a gente o vê como herói de ficção científica que ele não é. É um actor, nada mais. E um actor, como qualquer comum mortal, é também uma pessoa. Uma pessoa normal. Claro, passa à frente nas bichas para tudo, como demonstra "It hasn't happened yet", mas não deixa de não perceber puto da vida. Nada. Como toda a gente. Ninguém sabe nada, e Shatner não é excepção. Neste disco o "eu" só pode ser William Shatner, mas a personagem William Shatner e a pessoa William Shatner, o Bill, misturam-se. As histórias contadas são talvez exageradas, mas têm quase sempre um fundo de verdade. Por xemplo, "That's Me Trying", uma das canções do ano, é uma balada com uma letra de Nick Hornby, autor de "High Fidelity" e com um refrão cantado por Ben Folds e Aimee Mann. Há um "eu" que fala a uma filha com quem não tem estado durante vários anos. Tem falhado. Nunca esteve lá. E não quer pedir desculpa, sabe que é indesculpável, mas quer pelo menos tentar fazer com que a situação melhore. Nota-se que reflecte algo que já aconteceu à pessoa Bill e não só à personagem que narra, mesmo que não tenha acontecido desta forma. Há tempo para rockar, como no cover de "Common People" dos Pulp com Joe Jackson - curiosamente um dos heróis absolutos de Ben Folds - um tema que fica, mesmo depois de ter passado o espanto inicial, qualquer coisa como: "Foda-se! O Captain Kirk do Star Trek a cantar Pulp!" Há tempo para a preparação para a morte, como em "You'll have time", algo como a Broadway aplicada à morte, com um coro de muitas pessoas a dizer "You're gonna die" e a enumerar pessoas que já morreram, não há nada melhor que ouvir "Joey Ramone" em coro. Há tempo para um concurso de gritos com Henry Rollins, ex-Black Flag e actual Rollins Band. Há tempo para um hino à sua mulher, "Together", com os Lemon Jelly. Há também tempo para um tema algo parecido com o tema-título da série "Rawhide", chamado "Has Been". Ou seja, William Shatner tem tempo para tudo, mesmo entrando na recta final da sua vida.

Em entrevista recente ao programa da NBC "Late Night with Conan O'Brien", Shatner diz ter descoberto o rock'n'roll numa altura tardia da sua vida. É um caso claro de como é melhor descobri-lo tarde que nunca. Esqueçamos o que aconteceu há 35 anos, esqueçamos o que veio antes. Que nunca mais ninguém se atreva a gozar com William Shatner, dizendo que o seu tempo já passou. Has Been é um nome que engana. O seu tempo não passou, o seu tempo é agora ou ainda está para vir. William Shatner está mais vivo que nunca. E com uma força brutal. Tomara metade das estrelas de agora estarem aos 30 anos tão vivas quanto William Shatner está aos 70. A fazer-se justiça, William Shatner já não será mais visto como um canastrão - há muito que vem provando que é tudo menos isso. Tem uma personalidade maior que a própria vida, transcendental, e é dotado de um carisma incrível. O som pode muito bem ser Ben Folds, mas a personalidade é indubitavelmente William Shatner. E isso nota-se. Porque aquilo que já foi pode muito bem voltar a ser.


Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
30/11/2004