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The Album Leaf A Safe Place

2004
Sub Pop


Nos últimos anos, naquilo que parece ser quase um truque de magia, a Islândia tornou-se numa fonte de inspiração para muito boa gente. Das terras gélidas para todo o mundo, surgiram os Sigur Rós, os Múm, os Gus Gus, os Leaves, Mugison, e sabe-se lá mais o quê. E já diz o ditado: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. Para o seu novo disco, Jimmy LaValle assumiu pela terceira vez o epíteto Album Leaf, aceitou finalmente o convite que lhe havia sido feito e viajou para a Islândia na procura da tal inspiração mágica. A Safe Place, que marca a estreia do projecto de Jimmy LaValle na Sub Pop, foi gravado num estúdio onde os Sigur Rós e os Múm já trabalharam, por entre as paisagens árcticas da Islândia.

Depois do álbum de estreia, An Orchestrated Rise to Fall, de 1999, One Day I'll Be on Time, de 2001, e a digressão com os Sigur Rós colocaram Jimmy LaValle num patamar mais elevado. E é precisamente a influência dos Sigur Rós que, directamente ou de forma menos implícita, mais se nota em A Safe Place. O tempo que Jimmy LaValle passou com os autores de Agaetis Byrjun fizeram-no olhar para a música e interpretá-la de uma forma mais directa e profunda do que, por exemplo, em One Day I'll Be on Time. Além disso, Jónsi, Kjarri e Orri, membros dos Sigur Rós, contribuíram com vozes e vários instrumentos em algumas faixas deste disco. Logo na primeira faixa, “Window”, as semelhanças com as ambiências de (), o último registo dos Sigur Rós, são óbvias e instantâneas: paisagens rarefeitas, o cheiro a terra molhada num tema delicado e adornado por pormenores que lhe conferem uma condição etérea - as Amina, a secção de cordas dos Sigur Rós, marcam também presença neste disco. “Window” é a passagem de testemunho para “Thule”, outro instrumental que começa com a percussão e que depois continua com teclados quentes e suaves. “On Your Way” introduz uma novidade na música de Jimmy LaValle: a utilização da voz, que ele mesmo trata de emprestar.

“The Outer Banks”, curiosamente, conta com a participação de Gyda Valtysdottir, que outrora fez parte dos Múm, e que aqui empresta os seus dotes no violoncelo. Curiosamente porque neste tema, as batidas intrincadas e as paisagens frágeis remetem exactamente para a sonoridade dos Múm. Como quase sempre, os teclados de Jimmy LaValle concedem elegância de formas e encanto à sua própria música; estes, em conjunto com as já referidas batidas, o violoncelo, e a guitarra criam uma espécie de clímax emocional, naquela que é a canção mais viva e jubilosa de todas. “Over The Pond” conta com a voz de Jon Thor Birgisson, a voz dos Sigur Rós e com o seu afamado dialecto Hopelandic. Aqui, constroem-se atmosferas invernosas, onde se juntam gaivotas, xilofones, e o frio. Muito frio. Outras das participações especiais de A Safe Place é a voz de Pall Jenkins dos Black Heart Procession que em “Eastern Glow” diz: “Try to find / Maybe this time / Don’t turn your head / It’s easy to forgive”.

O Verão está aí a chegar e este pode muito bem ser o álbum perfeito para quem ainda não quer deixar o Inverno definitivamente. A Safe Place reúne algumas das mais belas faixas instrumentais editadas ultimamente e marca claramente uma evolução na sonoridade do projecto de Jimmy LaValle. Evolução essa que tem em “Moss Mountain Town”, o longo tema que encerra o disco, um resumo esclarecedor: a grandeza das canções de Jimmy LaValle ameaça conquistar muitas almas desprevenidas.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
07/07/2004