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Animal Collective Sung Tongs

2004
Fat Cat


Quando éramos crianças – aptas a viver a fantasia sem noção do ridículo – acreditávamos ser possível cavar um buraco na areia para chegar à China, encontrar petróleo ou um tesouro. Mais do que a virtual esperança de encontrar algo que seja, é a expectativa a principal razão de ser deste "faz de conta". Acreditem ou não, mas creio ter encontrado um atalho para Zion ou qualquer lugar paradisíaco semelhante. Trata-se de Sung Tongs, o mais recente acrescento de Animal Collective à definição do dicionário para "incatalogável". Diz-se por aí que tudo já foi feito no que diz respeito à música; pois aqui está uma evidente prova de que esse dogma pode ser contornado.

A britânica Fat Cat tem vindo a habituar-nos a um catálogo de propostas diversificadas e surpreendentes. As suas bandas mais emblemáticas (entre elas, os Sigur Rós) parecem mais dispostas a estabelecer um plano etéreo para a criação de imagens mentais, do que propriamente investir na linearidade musical (muito à semelhança do que acontecia com a 4AD há uns 20 anos atrás). O gato ficou ainda mais gordo ao adquirir este Animal Collective. Altamente prolífico, o colectivo sediado em Brooklyn caracteriza-se pela névoa que encobre a identidade dos seus colaboradores (os mentores assinam sob os pseudónimos de Panda Bear e Avey Tare) e pela bizarra forma como combina psicadelismo, "samples" e folk de melhor apanha. É progressiva a descodificação desta mescla, que, aos poucos, se vai convertendo em emoções. Sung Tongs envolve-nos num prolongado transe (escutar "Visiting Friends"), enquanto sussurra por entre as suas melodias: "Dispam-se, libertem os vossos espíritos, ride the snake."

Enquanto Here comes the indian lavrava um solo de raízes experimentais numa festiva (e, por vezes, conflituosa) convivência com os grilos e outros bichinhos, o mais recente veículo dos Animal Collective perfura esse mesmo solo numa viagem ao centro da Terra. Pois é isso mesmo que Sung Tongs simula: a sensação de que estamos a ser soterrados por camadas de psicadelismo e estilhaços de ruídos estridentes. A sonoridade de Sung Tongs não destoaria em aulas de Yoga, cerimónias de abertura ou encerramento de um grande evento desportivo, promos do Canal Odisseia ou orgias secretas entre burgueses. A folk enquanto plasticina moldável a uma infinidade de ocasiões. A universalidade da "world music" de mãos dadas com uma invulgar sensibilidade "indie". Imaginem os Modest Mouse empenhados no projecto 1 Giant Leap, e ficarão com uma ideia. Os Beach Boys de Smile a tocar versões das dementes incursões dos Butthole Surfers pela folk.

Há muito que não escutava um disco com uma faixa inicial tão desarmante: "Leaf House", que dá início à cerimónia tribal ou reunião sob manto de estrelas. "Who could win a rabbit" e "Winter Love" são cantigas a serem entoadas à volta da fogueira, num local cuja distância depende apenas da imaginação de cada um. Por seu lado, "The softest voice" e "Mouth Wooed her" são o par de exemplos que melhor representam o carácter onírico e hipnótico do disco.

Ora aí está o álbum perfeito para expandir os horizontes musicais da comunidade Hare Krishna. Potencial disco de culto para escuteiros (escuteiros??!?!) de gosto refinado. Todos sabemos que o "ghetto" – que alberga a música "alternativa/independente" nas lojas de discos – tem lugar para tudo, mas jamais desconfiávamos que por lá pairasse disco tão encantador quanto primordial, capaz de nos transportar do autocarro 56 ao Jardim Rosedal de Buenos Aires à velocidade do pensamento. Para já, é o álbum-experiência do ano. Continuemos a cavar.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
22/06/2004