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Iguana Garcia Cabaret Aleatório

2017


O título que Iguana Garcia, nome com o qual João Garcia assina a sua música, é semi-enganador. Se é verdade que existe nestes temas uma aura festiva, de cabaré, convidativa não só à dança como à bebida (preferencialmente tropical), não há nada que possa ser considerado aleatório - isto é, colocado a martelo. Não; são oito faixas e todas elas mostram ter sido cuidadosamente laboradas de forma a que a sua mensagem sonora passasse, sem se refugiar em subterfúgios de outra espécie. A improvisação não encontrou lugar aqui. As melodias e os ritmos encaixam como peças de um puzzle gigante.

Um puzzle que é feito de electrónica psicadélica, quiçá mesmo espacial, e que bebe das mais variadas influências. E não é só electrónica. Também as guitarras se fazem ouvir, lado a lado com as caixas de ritmos e os sintetizadores. E há, importantíssimo, a voz - quando aparece - capaz de colocar pequenos traços poéticos por cima do seu hedonismo. A prova: "60KF", onde se pode ouvir uma daquelas frases que ficam mesmo que o não queiramos: Eu já pensei em deixar de ser feliz / Para ser normal..., fazendo lembrar, por exemplo, o excelente trabalho de Armando Teixeira sob o moniker Balla.

"60KF"é, de facto, a canção mais imediata - ou, até mesmo, a canção por excelência. De resto mais do que canções, há deambulações pelas capacidades lisérgicas da música de dança: "Vapor", título mais que justificado tendo em conta que melodia e ritmo sobem e se dispersam pela atmosfera, "Já De Manhã", house cósmico que explode em refrão a meio, e "Quando Eu Era Puto", disco-funk que não destoaria num disco de Thomas Bangalter. O veredicto? Que se lixe isso, vamos dançar.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
25/10/2017