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LCD Soundsystem American Dream

2017
DFA / Columbia


Não nos deveríamos sentir ofendidos? Despediram-se. Deixamo-los ir. R.I.P. E… Quando achávamos que estavam entregues aos vermes a sete palmos, a reviravolta. Afinal não estava tudo resolvido volvida a sepultura. Afinal apareceu uma reflexão, que se multiplicou. Reflexões que se desmultiplicaram.

Pertinência do momento, da revolta, da conjectura, da política, é sempre o resumo da desculpa. E são muitos os exemplos dos cadáveres que se erguem. Bandas e bandinhas que renascem, zombies ávidos de dar mais um instante orgásmico aos fãs – porque é tudo para eles, em nome deles, honestamente.

É inevitável o cinismo. Neste caso também. Este caso do bando de James Murphy. Ele, eles? O conjunto largou tudo porque nada mais havia. Ele, pelo menos, voltou atrás. Desculpou-se numa rede social. E já tinha o bando atrás dele outra vez. Fez algum sentido o fim? The Long Goodbye?

Pelos vistos, não. Lidar com o regresso dos LCD Soundsystem não é um caso de imediato entendimento. A etiqueta de ‘regresso’ tem o seu peso – que amiúde é penoso para o melómano. Murphy força a revinda, esgravata a terra para se voltar a mostrar. O que descobriu ele no outro lado volvida a missa de finados?

Pelos vistos descobriu as genuínas contrariedades da vida. A maturidade, ou melhor, a gravidade. O que é o quê, como sorrir para elas, as vicissitudes, o que realmente levar a sério. LCD Soundsystem, American Dream, James Murphy, é uma toma de reflexão, com as contradições que tal implica. E as reflexões que se desmultiplicaram.

American Dream não fala de sonhos idílicos. Muito menos de sonhos perfeitos numa América rasgada que está tudo menos concentrada nas virtudes da imaginação, já agora, na sobriedade. Não rompe com a sonoridade do bando – de Joy Divison a Bowie, de Eno a Talking Heads, de Kraftwerk a Neu!, punk-qualquer-coisa e virtuosismos do fim de 80 como o acid de Chicago.

Longe de reinventar o projecto, American Dream é um monstro sonoro reconhecível. E está lá tudo o que deve estar. Murphy assegurou-se disso ao 'voltar'. O que ele acrescentou não foi tanto ‘físico’ à matriz da sua música – e a produção continua imaculada! – mas metafísico – não por andar em busca de uma divindade para explicar a criação, mas tentar descobrir porque somos ‘assim’, frágeis e patéticos.

E eis porque American Dream interessa aos nossos ouvidos. Não é um mero regresso com estilo ou fazer render a ‘marca’ LCD, e pouco – se não mesmo nada – a ver com a nostalgia dos fãs, de como precisavam mais uma dose. Isto é um disco de James Murphy, feito por ele e para ele. Ele achou pertinente partilhá-lo para se sentir um pouco mais completo como pessoa. É por isso que é extraordinário.


Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com
04/09/2017