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Homem Em Catarse Guarda-Rios

2015
Honeysound


A catarse pode assumir muitas formas: seja o frémito que se sente através de uma canção de arrepiar a espinha, a magnitude implacável de uma paisagem terrestre ou estelar, a notícia ou notícias de vitórias cívicas e sociais construídas por esse mundo fora ou a bola que entra ao minuto 92, 86, ou a qualquer um. A catarse é o grito da alma, a palavra sem linguagem específica. E é também, de acordo com o fiel Priberam, a evacuação dos intestinos - o que certamente poderá fazer as delícias dos haters de Afonso Dorido.

Contudo, torna-se difícil ser hater ao escutar a sua música, frágil e inocente como uma folha no outono, ou como um coração mole, como o próprio o canta em "Covilhã (Em Maio)", a faixa que abre o seu mais recente trabalho, Guarda-Rios. O disco não tem mais do que meia-hora; e essa meia-hora sabe por dezenas. Basta que dentro dela estejam contidos esta voz, esta guitarra e os loops que ajudam sempre. É uma daquelas sessões de choro boas, em que no final nos enxugamos e ficamos com a cara mais limpa do que antes da tristeza.

Choro, sim, que as duas últimas canções - "Teremos Sempre Paris", onde no final escutamos uma melódica, e é impossível não amar o som de uma melódica, caramba!, e "O Que Passa, Esvoaça", que vai do cristalino ao caos num só minuto - são coisa para nos deixar derretidos de mágoa meiga. Faz sentido que no seu Bandcamp uma daz tags seja "Emotional", assim como faz sentido chamar a isto slowcore; Guarda-Rios é uma labareda crepitando devagarinho no canto das nossas mais profundas inquietações, um disco que escutamos mil vezes só para lhe podermos dar um carinhoso abraço à distância. Há toda uma poesia numa lágrima.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
12/11/2015