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Nicolas Godin Contrepoint

2015
Because Music


Jean-Benoît Dunckel já o havia experimentado há nove anos; Darkel foi uma experiência confusa, ambígua, longe de firmar identidade, demasiado ancorado à pop-rock deslavada que os AIR já praticavam – a vozinha choninhas de JB irritou mais do que seduziu.

Dunckel e Godin há muito que perderam a vitalidade narrativa fantasiosa, a marinada melódica, a verve romântica capaz de gerar pertinentes bandas-sonoras possuídas de acutilantes ironias. Aquela força – de depuração dos maneirismos da pop clássica – que os colocou em orbita com o colosso Moon Safari, e os dois subsequentes (três se incluirmos The Virgin Suicides) –, desapareceu quando a ingenuidade pueril foi substituída por uma maturidade com demasiadas formalidades: nos AIR (Amour, Imagination, Rêve) tudo começou a soar forçado, logo chato e insípido.

Volvida tanta insipidez enquanto conjunto – talvez agora numa séria pausa –, era impossível olhar para o lado perante a investida a solo de Nicolas Godin; álbuns a solo permitem, amiúde, determinar quem, no colectivo, tem singularidade no carácter, ou mais disposição para a aventura, ou tem genuína e reconfortante poesia a vadiar na alma.

Por conceito, ou defeito, materializa-se em Contrepoint uma intrigante colecção de curiosos momentos dos AIR; momentos que, de forma mágica, são repescados porque Godin os prezou com grande carinho; maturou-os ao longo dos anos e soltou-os agora, presenteando-nos neste disco com o seu ponto de vista, em que faz questão de não se ficar pela superfície: estimulante pormenor nesta obra recai na forma como Godin enquadra o espírito renascentista de Bach – que, a dado ponto, se manifesta em evidência pela cantata BWV 54 "Widerstehe doch der Sünde" – e o infunde despreconceituosamente no caldeirão das suas referências pop. A elegância em como tudo é impecável.

Apesar do perfume encantador, algo giro e nostálgico, Contrepoint não é assim tão imediato. Não temos Moon Safari, The Virgin Suicides, 10. 000 Hz Legend ou Talkie Walkie. Não. Mas há ecos do passado, não os mais esperados nestes dias. Contrepoint é Nicolas Godin a imaginar o futuro a partir dos entendimentos do compêndio de 1997, Premiers Symptômes, assomando alguma da poesia de City Reading – sem matar ninguém de tédio –, e em definitivo mostrar que as mais pertinentes ideias em Love 2 tinham o seu cunho.

É garantida uma coisa: não há pop choninhas em Contrepoint. Há robusta sobriedade neste diverso conjunto de músicas – que tanto venera o barroco, o swing, o kosmisch, Gainsbourg, Pink Floyd, Jobim ou Tim Burten (por Danny Elfman). Ouvindo “Bach Off” até possível escrever um guião de um filme (com um Cravo pelo meio a martelar fantasia sem fim) onde James Bond e John Steel perseguem vilões numa savana africana onde o céu é varrido por estrelas cadentes; o tema permite a tal – sonhar sem embaraços.

Há neste Contrepoint (que estou certo que andará por aí muito tempo à procura de um lugar na história) uma concisão de estados de alma, uma maturidade, uma liberdade para o saber estar e o recriar. Um bom começo para uma contraposição, se me faço entender.


Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com
26/10/2015