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Rasal.Asad Asuna

2003
Thisco


Chegados ao espaço sideral, importa recrutar um guia que ensine a auscultar uma galáxia, a perceber-lhe a germinação de sons, numa contemplação letárgica, despreocupada. O universo está polvilhado de silêncios intersticiais, espaços sem matéria. De um nada circular, repetitivo, como uma projecção de Narciso numa nebulosa de drones terráqueos postos a girar pela força gravítica. O cicerone da visita interplanetária pode bem ser Fernando Cerqueira, o homem por detrás das máquinas e iminente estratega da electrónica lusa. E este Asuna pode servir de Bíblia para converter os infiéis que habitam para lá da esfera terrestre.

Rasal.Asad √© o alter-ego do projecto Ras.Al.Ghul, este formado em 1997, para as digress√Ķes menos tel√ļricas, assim a dar para o ambiente e sem a sobranceria da caixa de ritmos. O cinematismo fabricado por pistas como ‚ÄúAkshun‚ÄĚ e ‚ÄúEarworm‚ÄĚ resulta de impulsos surdos, ventos lunares a castigar a superf√≠cie glaciar. N√£o, n√£o √© um produto island√™s certificado, √© portugu√™s e com muito gosto. Aqui, as plan√≠cies de gelo s√£o camadas de filigrana organista, linhas de s√≠ntese entre a hostilidade invasora e a sedu√ß√£o intr√≠nseca. N√£o h√° um sentido de urg√™ncia porque, no espa√ßo, as horas s√£o reduzidas a p√≥. A√≠, o tempo √© infinito, √© um riacho que serpenteia e foge do alcance das sondas.

Se j√° Space.Scape havia merecido o aplauso fervoroso da cr√≠tica de al√©m-fronteiras, o presente documento n√£o deve de todo ficar esquecido, porque constitui um grandiloquente eufemismo electr√≥nico, no sentido em que aligeira a habitual manta saturada de programa√ß√Ķes e cruzamentos. As escaladas mais ousadas e os enclaves mais perfurantes pertencem a uma topografia s√≥nica apenas aferida pela escuta detalhada, pelo estudo de pormenor dos temas.

A contracapa ostenta a inscri√ß√£o "all tracks recorded at first take", e desenganem-se os mais distra√≠dos: n√£o falamos de leigos quando falamos de Paulo Rodrigues e do supracitado Fernando. Em 1985, eles edificavam o projecto Croniamantal, que deixou registo em compila√ß√Ķes nacionais e internacionais, ao lado dos Young Gods, Von Magnet ou Dive. Dois anos mais tarde, nascia a etiqueta SPH pela m√£o do hiperactivo Fernando, que veio a distribuir trabalhos de gente como Jim O‚ÄôRourke, Merzbow e Brume. No in√≠cio da d√©cada de 90, as ci√™ncias do oculto, o cyberpunk e a body art passaram a ter prateleiras pr√≥prias na Ligotage, uma livraria da contra-cultura. E √† frente de Ras.Al.Ghul, o duo conta j√° com sete discos editados.

Regressando a Asuna, encontra-se a equa√ß√£o matem√°tica que equipara a languidez estil√≠stica √† quietude do esp√≠rito e que, em √ļltima inst√Ęncia, tem como resultado uma obra ondular, circunscrita a si e aos seus pares e a lan√ßar as mol√©culas para o futuro. Em ‚ÄúSimulacra‚ÄĚ, o credo √ļltimo, disserta-se sobre a exist√™ncia de Deus e do seu oposto. Diz-se que o Inferno √© o tribunal que legisla no sentido da puni√ß√£o eterna. Talvez fa√ßa, ent√£o, sentido a tese inicial deste poder ser um disco da convers√£o e reden√ß√£o. Que pode at√© ser pag√£o mas √© bom como o raio.


Hélder Gomes
hefgomes@gmail.com
19/01/2004