bodyspace.net


Nick Cave & The Bad Seeds Push the Sky Away

2013
Kobalt


Certo, este texto vem com atraso, Nick Cave já nos deu Push the Sky Away há dias suficientes para tornarmos o disco coisa nossa sem termos dado por ela. Mas neste caso a actualidade já era. Quem quer saber disso quando nos perdemos no meio do conto de fadas negro deste saudável lunático? Mais: o álbum está longe de ter prazo de validade ou estação do ano definida. Isto é música sem horas nem sono. Sempre pronta, para alimentar romances ou melancolias, é escolher. Em qualquer dos casos, a satisfação é inevitável. Mesmo quem não queira vai dar por si sem escapatória. Quantos são capazes de tal proeza? Nem vamos tentar contar, a coisa não vai correr bem.

Push the Sky Away faz-se da música certa para problemáticos fantasmagóricos que se alimentam dos males do amor; seres da família das sanguessugas de dentes afiados e outras mitologias em corpo de gente. É coisa de filme qual quê, é Nick Cave a recusar vestir outra coisa que não seja um fato negro mas, ainda assim, transpirar luz. Ninguém o sabia possível? As guitarras vão devagar, mas tanto embalam como arranham, que ninguém se engane. Ele há cordas, com os arranjos que não existem só para decorar, ao jeito de cortinados em salas sem janelas, nada disso – o enredo pede por cada um destes elementos decorativos e a elegância de todo o álbum faz com que nada seja a mais, nem uma nota.

“Rounding up the kids for their meal” e os filmes de terror com Dickens no meio do argumento; a rapariga de “Jubilee Street”, que “tinha uma história mas não tinha um passado” – e se ela desaparecer, quem é que vai dar por isso? Mais a merda do destino: “You grow old and you grow cold”, canta-nos o sacerdote, que mais tarde irá gritar “quem quer saber daquilo que o futuro nos vai trazer”. E nós a dizer que sim, que a caminhada para a desgraça é inevitável mas nem por isso má, se for cantada sempre desta forma. Algumas destas cerimónias têm a duração que as regras da pop impõem, outras atiram-se aos sete minutos sem vergonha nenhuma. Cá para o nosso lado, o equilíbrio é sempre perfeito, ele que escolha cantar durante o tempo que quiser.

Não há electricidade demoníaca, não há exorcismos óbvios (ainda que lá estejam). Push the Sky Away é um baile de gala que enviou convites aos pares que se dão mal com o ritmo – o do quotidiano em geral. E pode ser dançado sozinho, olhos fechados, mão no estômago e outra no ar, pouca luz e menos pensamentos (ou todos ao mesmo tempo, ainda melhor). O melhor de tudo: isto há em disco, um que merece destaque e rotação intensiva, mas também vai estar no Primavera Sound. Que ninguém se queixe da sorte que tem.


Tiago Pereira
28/02/2013