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Alla Polacca ’Not The White P’?

2003
Bor Land


Depois de uma maqueta conjunta com Old Jerusalem e da presença em todas as compilações editadas pela Bor Land (mesmo que com uma remistura da Sealing Orchestra, no caso da mais recente 007), muito se poderia esperar do registo a solo dos Alla Polacca. Num cruzamento criativo que tanto podia degenerar num rock plácido para guitarras estendidas e vozes afáveis, como numa complexa malha de confluências diversas onde fosse passada em revisão toda a carreira desde 2001, a opção foi decompor. ’Not The White P’ ? é sinónimo de back to the roots, sendo o piano praticamente o único instrumento utilizado. Piano que é, afinal, um instrumento simbolicamente ligado a grande parte da história da música e um dos grandes monstros do classicismo. Não confundir, porém. ’Not The White P’ ? partilha com esses tempos o sentido épico, a comoção tanto dos arranjos como das interpretações e a intemporalidade, mas inscreve-se numa linha bem mais afastada. Não sendo pop, nem tão pouco rock, é um disco de melodias pouco claras, mas nem por isso cheias de um sinfonismo dilacerado.

No palmarés têm como momentos maiores a vitória no Termómetro Unplugged e Festival 365. Antes, pouco depois de se terem formado, na recta final de 2001, lançaram um Split-CD em edição de autor, a meias com Francisco Silva (também conhecido por Old Jerusalem), que começava a mostrar uma excelente capacidade de passar para a pauta ideias ricas e merecedoras de alguns aplausos. ’Not The White P’ ? surge quase dois anos depois, e é já a décima edição da Bor Land, editora de recorrente citação sempre que se tenta explicar a música que se vai fazendo do lado oeste da Península Ibérica no início do Séc. XXI.

A espaços, remete-nos para recantos recônditos e cavados bem fundo na nossa consciência, onde se encontram os elementos que representam aquilo que já experiênciámos - o passado. Também nos remete para um outro sentimento que, pelo menos a expressão em si, os portugueses parecem conhecer muito bem: saudade. Saudade do passado – de um cheiro, de uma pessoa, de um local ou então, simplesmente, do que se foi em tempos. Mas sempre, quase sempre, é sinónimo de futuro. De um futuro esperançoso, que tem tanto de irracional como de premeditado. ’Not The White P’ ? é hino para um país sem nome. Contudo, é preciso não perder o rumo a norte. Se a bússola estiver correcta, os Alla Polacca foram um pouco ao lado. Nada que uma nova viagem não resolva de vez.


Tiago Gonçalves
tgoncalves@bodyspace.net
14/11/2003