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Black Dice Mr. Impossible

2012
Ribbon Music


Tendo em conta tudo o que se passou, torna-se fácil esquecer o passado longínquo dos Black Dice embrenhados no lixo do Hardcore mais ruidoso. A magnificência do incontornável Beaches & Canyons como ponto zero de algo que nunca se viria a repetir – como poderia, na verdade? “Things Will Never be the Same” é profético - mas que deixaria em aberto todo o mundo de possibilidades que a banda nova iorquina tem vindo a trilhar com uma determinação feérica após a saída do Hisham Baroocha. Com este último a levar as ideologias new age e as batidas pós-tribais para Soft Circle, coube aos três membros restantes – os manos Copeland e Aaron Warren – reinventar a orquestra de sons disconexos e indecifráveis numa lógica de abstracção lúdica e continuamente intrigante.

Não deixa de ser curioso, portanto, que sem dar passos atrás em relação à escalada ou enterranço progressivo até ao anterior Repo, Mr. Impossible faça ressurgir alguma da energia pós-Hardcore – não confundir com o “género” desse nome – que permeava alguns dos lançamentos mais marginais da banda circa 2001/2. Numa realidade paralela onde Beaches & Canyons nunca tivesse existido – e o mundo seria muito, muito mais triste - Mr Impossible seria o nervo entre algo como Peace in the Valley/Ball e Creature Comfort. Embora este pensamento rebuscado não se permita a uma visão coerente sobre o enfoque de Mr. Impossible por força de toda experiência acumulada nos últimos anos, paira por aqui uma falsa agressividade e um som mais musculado – o punch da tarola, algumas vozes mais rasgadas, riffs, etc – ausentes das erupções benignas de “Manoman” ou “Glazin”.

Acto contínuo, é também o álbum mais imediato da banda – descontando Load Blown como uma compilação de singles - assentando arraiais numa progressão mais ordeira, onde anteriormente se desconjuntavam ideias de lógica difusa – e Repo era, apesar das falhas, um disco mais interessante do que muitos quiseram crer. Claro que banda ainda não sucumbiu ao conformismo nem ingressou nas artes da canção – apesar do uso constante de vozes – e, para os mais temerários, existe ainda toda uma panóplia de sons alienéigenas e melodias enviesadas. Condensados num caleidoscópio mais vigoroso e, permita-se a extrapolação, memorável.

“Pigs” deixa logo essa ideia marcada, com uma melodia meio sacada às primeiras notas de “Lucifer Sam” dos Pink Floyd – afinal de contas, tudo isto é psicadelismo – a repercutir os estalos da batida, num call & response constante entre uma voz ultra-processada e uma guitarra heróica. Lá para meio, o ritmo acelera e surge uma daquelas melodias circulares que lhes são habituais. “Rodriguez” está algures entre “Manoman” e “Motorcycle”, sem soar verdadeiramente a nenhuma delas. “The Jacks” conta até com power chords encharcados em fuzz, naquele que será o momento mais headbanger da banda em muito tempo – e quem já os viu pode prever como soará avassalador ao vivo. Característica transversal a um disco que parece nascer no seio da banda com essa vivacidade do momento.

“Pigs” é sintomática disso mesmo, enquanto versão psicadélico-lúdica de uns Suicide com direito a riff power pop, mas acaba por ser um dos momentos menos interessantes da banda na sua procura por algo mais tangível. Num contraste de energia centrífuga com o downtempo de “Spy Vs. Spy” onde, novamente, a guitarra dá uma achega a um solo clássico. “Outer Body Drifter” é o pseudo-hino dançável da banda – facção pós-punk ou não estivessem tido eles ligados à DFA – enquanto “Shithouse Drifter” leva a questionar porque não fala mais frequentemente sobre os Mouse on Mars – também eles criadores admiráveis a fazer do experimentalismo algo divertido.

“Carnitas” é o épico de oito minutos que conjuga todos os trejeitos de uma banda respeitada mas muito pouco ouvida, na realidade. Há sempre a lembrança de Beaches & Canyons, mas essa comparação já há muito deixou de fazer sentido, quando eles inventaram para si uma linguagem profundamente personalizada. Mr Impossible não deixa de ser Black Dice no seu modus operandi, mas desta feita, com propósitos mais vincados que deixam de lado aquela “estranheza pela estranheza” que por vezes se lhes colava. E como tal, um disco que sem forçar uma reinvenção inusitada nem restaurar a fé na banda – porque esta nunca se perdeu – torna o regresso a ele constantemente aprazível. Para alguém sem nada a provar, é obra de respeito.


Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
31/05/2012