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Black Bombaim Titans

2012
Lovers & Lollypops


N√£o obstante todas as suas caracter√≠sticas t√©cnicas facilmente identific√°veis - riffs por norma pesados, influ√™ncias das ragas indianas e outras m√ļsicas do mundo, letras, quando as h√°, imbu√≠das de simbolismo e surrealismo -, uma d√ļvida, sobretudo filos√≥fica, persiste ao escutarmos quer os discos mais antigos e laureados (Are You Experienced?, Surrealistic Pillow, Welcome To Sky Valley), quer os mais recentes do g√©nero (como Rated O ou este mesmo Titans). Em que √© que consiste o rock verdadeiramente psicad√©lico e/ou stoner? Deveremos encar√°-lo como apenas mais um g√©nero musical com ra√≠zes variadas, uma evolu√ß√£o natural do rock n¬ī roll original que, pelo contacto/cont√°gio com outras culturas, foi inevitavelmente for√ßado a progredir? Ou, virtude do significado m√≠stico que muitos atribuem √†s drogas alucinog√©nicas, da sua utiliza√ß√£o para fins sham√Ęnicos, e cuja dissemina√ß√£o est√° igualmente na g√©nese do aparecimento do estilo nos anos sessenta da gera√ß√£o hippie, deveremos v√™-lo como algo mais, um abrir das portas da percep√ß√£o n√£o s√≥ musical, um acto espiritual em si?

A pergunta √© complexa, e variar√° de banda para banda. No caso dos Black Bombaim, por serem fruto do novo mil√©nio, seremos tentados a afirmar que a sua m√ļsica √© "apenas" (palavra absurda, mas exacta) um tributo a todos os bons discos que cresceram a ouvir. Mas isso s√≥ eles o poder√£o responder, e possivelmente nem eles pr√≥prios o saber√£o fazer com certezas. O que √© certo em Titans √© o sentido de urg√™ncia que o perpassa, um pedido, que ressoa n√£o s√≥ nos riffs que aqui se ouvem mas tamb√©m no n√ļmero tit√Ęnico (passe o trocadilho) de excelentes m√ļsicos instados a participar no disco, para que se d√™ um despertar colectivo de consci√™ncias. N√£o que os Black Bombaim, por si, precisem de provar algo - Saturdays And Space Travels, juntamente com o n√ļmero sem fim de concertos arrebatadores, j√° os havia indicado como um valor mais do que seguro do rock made in Portugal.

Mas Titans √© mais do que uma nacionalidade ou um nome, coisas que, no fundo, s√£o anti-natura. √Č uma inscri√ß√£o feita a talha de foice no Patrim√≥nio Musical da Humanidade. Os Black Bombaim olharam para o pante√£o, cercaram-no, incendiaram-no. No final restaram as ru√≠nas, o sangue, o suor, e um disco para ombrear com qualquer uma das obras que j√° l√° se encontravam. Da√≠ que, na primeira faixa, Adolfo Lux√ļria Canibal pare√ßa estar n√£o a instar contra o grande capital, mas a encorajar os pr√≥prios Bombaim no seu ataque cerrado:

CAMINHA SEM DOR
NEM QUEBRANTO PELOS VULTOS EM FLOR
QUE A GUERRA ABATE AO TEU REDOR
TITÃ
TITÃ
√ČS UM TIT√É

De uma perspectiva puramente c√≠nica (leia-se: idiota), gabe-se a coragem que os barcelenses tiveram ao lan√ßar, na idade da internet em que a maioria da popula√ß√£o (leia-se: hipsters) que dedica algum tempo √† m√ļsica n√£o tem paci√™ncia (leia-se: sofre de ADHD) para escutar √°lbuns com mais de trinta minutos (leia-se: √†s vezes h√° que detestar o punk), um √°lbum com pouco mais de uma hora de dura√ß√£o em que apontar exactamente um ponto alto √© uma tarefa, mais do que dif√≠cil, in√ļtil. Tentemos: o momento, na primeira faixa, em que, imediatamente a seguir a uma cavalgada acelerada, ALC inicia a sua diatribe; Tiago J√≥natas a trazer o psicadelismo kraut para a equa√ß√£o; o saxofone sleazy de Steve Mackay a colocar alguma √°gua na fervura; e o jogo de guitarra tanto de Guilherme Canh√£o como de Isaiah Mitchell. Mas isto s√£o pequenas aleatoriedades que aqui e ali saltam ao ouvido; em Titans, do omnipresente baixo √† sec√ß√£o r√≠tmica passando, claro, pelo ru√≠do delicioso de uma guitarra a ferver, tudo √© demasiado cativante para nos limitarmos a seleccionar trechos dos quatro temas que o comp√Ķem.

Quatro temas esses que poderiam muito bem ter sido mini-LPs em si, mas, a bem do equil√≠brio do planeta, os Black Bombaim decidiram n√£o deixar o esp√≠rito jam √† solta. Deixaram a agressividade, o del√≠rio absoluto do rock, e um objecto de verdadeiro culto para quem conseguir deitar as m√£os a uma c√≥pia - seja digital, seja f√≠sica: este √© mesmo daqueles discos soberbos em que o formato n√£o interessa para absolutamente nada. Posto isto, regressamos √† quest√£o original. O que √© o rock psicad√©lico? Um modo de chegar a um estado alucinat√≥rio? Com Titans, a √ļnica vis√£o que teremos √© a de tr√™s gigantes destruindo tudo √† sua passagem e sentando-se no trono celestial que passou a ser deles pela for√ßa... um disco que √© uma vit√≥ria para todos os que estiveram envolvidos nesta guerra. Resta-nos a n√≥s, mortais, esperar que tenham piedade de n√≥s.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
05/04/2012