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Norberto Lobo Fala Mansa

2011
Mbari


Provavelmente, ninguém a não ser Norberto Lobo saberia que caminhos se lhe deparavam na altura de escolher a tal da “direcção” para onde levaria o seu terceiro álbum, após os aclamadíssimos “Mudar de Bina” e “Pata Lenta”. A continuidade pura e dura daquilo que o consagrou, poderia recolher aplausos, mas não é certo que fossem dos duradouros. Talvez houvesse neles um pouco de “Mas para a próxima tenta sacar outras coisas dessa guitarra, hein?” A mudança radical pode ser bem vinda nalguns músicos. No caso de Norberto, seria uma pena ficarmos sem nada daquilo que nos começou por apaixonar. Enfim, fosse o que fosse que lhe passou, e como passou, pela cabeça, a verdade é que acabámos por ter mais um óptimo disco, povoado de personalidade e invenção próprias.

E o primeiro som que se ouve em “Fala Mansa” é...silêncio. Demora alguns segundos até que “Chuva Ácida (Darque)” se faça ouvir, e traga ecos longínquos da guitarra de David Gilmour dos Pink Floyd, mais precisamente de “Breathe”. Sem o virtuosismo blues-psych do inglês, Norberto Lobo demonstra que na sua música existem novas noções de espaço e pausa, sem prejudicar a beleza das melodias. Segue-se “Charleston Para Jack” (o falecido Rose), onde se acelera o ritmo e o dedilhar, numa música que rejeita a hipótese dos últimos resistentes da pista de dança irem para casa, mesmo quando o resto da banda já foi embora. Aliás, Norberto não se fica por aqui no que diz respeito a homenagear artistas que já nos deixaram. “Balada Para Lhasa”, uma magnífica construção perfeita para ilustrar um momento plácido/melancólico numa qualquer série de televisão, é outro exemplo de elevada inspiração.

Mas o disco está muito longe de se resumir à Palavra-D, e de qualquer influência mais óbvia ou fácil. “Chao Min de Luz” inventa a China no México (ou vice-versa), “Requiem Para As Abelhas” lança vibrações pelo ar, no mais próximo que Norberto Lobo já esteve do drone, mostrando que, entre os seus discos a solo, e o seu trabalho nos Tigrala, existe comunicação. “Fala Mansa”, a música homónima, encerra o disco com voz(!) e piano(!) tocado com parcimónia e intuição de qual é a melodia certa para a despedida do show. Já “Shibuya Girls Parte II” tem a particularidade de poder encaixar bem numa versão acústica de uma música de “Amnesiac” dos Radiohead. Talvez em “Knives Out”. Talvez Jonny Greenwood possa ligar para cá antes do Alive, se não estiver a fazer bandas-sonoras.

Enfim, apenas “Aconchego Solar” é demasiado by-the-numbers para se destacar. No resto, Norberto Lobo já não é crude a jorrar de um poço inexplorado. É gasolina refinada a correr em carros de chapa impecável pelas estradas do mundo. É um artista emancipado e valioso. Qual pode ser o próximo passo? Ele que decida, como é óbvio. Apenas uma dica, se tal me é permitido: A tal da gasolina não corre só nos carros!


Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com
23/01/2012