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BEBETUNE$ C-4 INHALE $$$$$

2011


Apesar da ambição conceptual em torno de Far Side Virtual ter tornado o James Ferraro numa espécie de super estrela factual da persona digital que vinha a criar mais ou menos a partir das suas Summer Headrush Series, esse disco deixava uma pálida imagem de um génio (mesmo) que ao longo destes anos tem tido uma proficiência incalculável mantendo um nível quase inatingível. Era um álbum de tal modo preso à sua clarividência MIDI que se via incapaz de subsistir como peça de interesse para além do mundo de ringtones ao qual se dirigia. Uma sinfonia para smartphones que espelhava, ainda assim de modo sucinto, toda a plasticidade da hiper-realidade, e que caiu de modo tão intrigante quanto exagerado nas graças da crítica um pouco por todo o lado. O seu a seu dono pela via errada?

Talvez, at√© porque o celebrado Night Dolls With Hairpsray j√° era um rehash cansativo do imagin√°rio 80's reencarnado numa pseudo-rock star, que vinha sendo explorada com resultados incr√≠veis em Lamborghini Crystal e atingiu o auge com o d√≠ptico Feed Me/On Air. √Č essa capacidade de absor√ß√£o de toda e qualquer reminisc√™ncia da realidade, transviada pelos filtros mais enviesados de um pothead √† merc√™ de uma vis√£o perif√©rica quase absoluta, que leva James Ferraro a sentar-se na cadeira de um "imagin√°rio" super-produtor. Um pouco como os Games faziam antever antes de se transformarem no duo Ford & Lopatin mas com maior √™nfase no eixo Rap/R&B, e em conson√Ęncia com as produ√ß√Ķes de indie darlings como o Clams Casino ou o AraabMuzik. Encarreirando-o (via Far Side Virtual) numa linha que o Simon Reynolds tra√ßou recentemente para a Pitchfork em torno do maximalismo, e que culminava com o excessivo Glass Swords do Rustie.

Todo um jogo de refer√™ncias em contacto tangente. Eco desse mundo referencial que o Ferraro tem vindo a criar de um modo enevoado e que tem agora uma surpreendente desenlace com Inhale C-4 $$$$$. Atrav√©s do pseud√≥nimo BEBETUNE$ (h√°bito que parecia ter desaparecido ap√≥s Edward Flex), Ferraro alinha na tend√™ncia das mixtapes para download gratuito e disponibiliza este freebie no Tumblr, a "surfar a onda" (pun parvo intencional) laudat√≥ria de que tem sido alvo nos √ļltimos tempos. Apesar de todo o oportunismo que possa estar envolvido nisto, seria injusto ver Inhale C-4 $$$$$ como um mero aproveitamento inusitado de coisas trendy como sejam o cloud rap dos Main Attrakionz ou do SPACEGHOSTPURRP, ou a samplagem R&B de muita da electr√≥nica actual (seja o esoterismo da Tri Angle ou tudo aquilo que possa ser considerado p√≥s-Dubstep).

Quanto muito, o Ferraro chega a um (vasto) territ√≥rio comum pelo lado do outsider multifacetado que, fascinado com as potencialidades da cultura popular, as recria sem qualquer ponta de ironia espertinha, mas com a no√ß√£o de que ultrapassados os estigmas p√≥s-modernistas esta pode servir todos e quaisquer prop√≥sitos para a cria√ß√£o de algo indefin√≠vel. Algo que aqui assume a influ√™ncia do trap rap do Lex Luger e do R&B l√Ęnguido do The Dream, e os imiscui por entre teclados pastosos e demais parafern√°lia tecnol√≥gica em modo sonhador. Evidente, desde logo, no autotune de "R E P T I L E ONLINE", que vai pairando de modo indecifr√°vel sobre uma cama de sintetizador e sons de telem√≥vel, antes da chegada de um solo de guitarra sintetizada que o bom gosto determinaria de azeite.

"MACCAU CELEBRITIES" evoca o lado mais sonhador do Sinogrime numa profus√£o de sons que se v√£o organizando em torno de uma linha mel√≥dica que teria servido os prop√≥sitos do Lost In Translation se este n√£o fosse t√£o preso √† milit√Ęncia indie. Mais √† frente, "MADNE$$" deixa-se contagiar por shout-outs e aproveitando o balan√ßo bem swingante consegue encaixar um som algures entre um koto e uma c√≠tara em clareza digital, num falso exotismo que √© exposto de modo evidente em "H2O" e "Sahara Jr.". A m√ļsica pop que se ouvia na iAsia que o pr√≥prio inventou enquanto m√ļsica em 2009 n√£o deve andar muito longe disto.

Apesar de prevalecer um lado upbeat em tudo isto (mesmo que alguns sons induzam a uma certa nostalgia), não deixam de existir alguns momentos maior contenção, em miniaturas como "MACHINE" e "P.O.W.E.R." (com voz no final no eixo Lil Wayne/Drake) e nessa pseudo-slow jam que é "LI$$TENING WITH YOUR EYEZZZ" com a participação de um tal Yung Cea$er que será, muito provavelmente, o próprio Ferraro. Acabando por subsistir de modo latente um certo sentimento de paranóia subliminar algo transversal, este torna-se mais notório no síndrome repetitivo de "Pepsi Baby" (Hacker Track impoluto) e no final em registo New Age de "NERO CEA$ER / ANTICHRIST" a lembrar o confronto entre distopia e esperança da banda sonora do Blade Runner.

Tendo em conta como o m√©todo de corte e colagem sempre foi uma constante na sua m√ļsica, mesmo que em moldes muito mais brutos, esta incurs√£o do Ferraro por um universo que, at√© agora lhe era estranho, acaba por nem ser assim t√£o descabida quanto inicialmente poderia parecer. Para uma contextualiza√ß√£o mais actuante, pode-se tra√ßar sem grandes problemas um cont√≠nuo l√≥gico de Far Side Virtual a Inhale C-4 $$$$$. Afinal de contas e ao longo destes anos, a coer√™ncia sempre existiu pela simples persist√™ncia ou estupidez do Ferraro em fazer aqueles discos que mais ningu√©m pensaria em fazer (apesar do legado vis√≠vel em nomes como Kwjaz ou Ducktails). Esta mixtape √© mais uma brilhante adi√ß√£o a um c√Ęnone fascinante e profundamente idiossincr√°tico. Tivesse sa√≠do umas semanas antes e seria indispens√°vel nos Topes. N√£o que isso fa√ßa qualquer diferen√ßa.


Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
16/12/2011