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B Fachada B Fachada

2011
Mbari


Depois do proto-manifesto Deus, Pátria e Família aqui está mais um disco de B Fachada, que assim cumpre a promessa de ser bastante puritano e fazer dois discos por ano (pena que o segundo disco chegue sempre tarde demais para entrar nos tops). Com este novo álbum, o segundo homónimo, confirma-se também o padrão de que o disco de inverno é o disco para ser levado a sério (B Fachada de 2009 e É pra meninos assumem o formato longa-duração), enquanto que o EP de verão será apenas um divertimento ligeiro (apesar dessa diferenciação pela duração, o EP Há festa da moradia continua o favorito cá de casa).

Neste disco sério Bernardo regressa ao registo baladeiro, com a voz quase sempre acompanhada pelo piano. Esteticamente mais próximo do disco de 2009 (aquele da capa das melancias), este novo Fachada aposta na simplicidade dos arranjos e, sobretudo, na eficácia das melodias redondas. O primeiro grande momento chega ao segundo tema, “Roupa de estrada” - épica balada auto-reflexiva de sete minutos. De seguida Fachada enfrenta com coragem a ameaça de calvície, em “Cantar o apelo”: “vou perdendo o apelo mas tu, p'ra quebrar o gelo, dizes que a careca te apraz”.

(Façamos aqui um parêntesis para uma importante nota: a dada altura Fachada canta a frase “quem dera que o pior tivesse sido a “Primavera”. Não se percebe, uma vez que essa canção-citação é do melhor early-Fachada e, estando incluída no MiniCD – Produzido por Walter Benjamin, foi a primeira verdadeira prova de um talento capaz, a par do outro mini-clássico “Mimi”. Sim, é uma malandra homenagem a “Let's Do It (Let's Fall in Love)”, mas pelo resultado final Cole Porter deverá ser creditado apenas em 30%. Pronto, vamos fechar o parêntesis, podemos continuar.)

“Está na hora da passa” acelera o ritmo, entrando num registo mais parvo, incluindo referências à maltinha da Cafetra (Pega Monstro, etc.) e uma especial dedicatória a uma certa banda nacional: “tudo fica com mais graça, excepto a prenda de Alcobaça”. Mais para o final chega o outro ponto alto do disco, “Não pratico habilidades”. Numa lição sobre o sexo e o amor, o personagem da canção assume falta de qualidades naturais, mas confessa-se esforçado, algo que deverá ser sempre valorizado - “preguiçoso e mau de piça / sou um bruto a melhorar / enquanto não te fizer justiça / não me sento a descansar”.

Disco globalmente coerente na toada dolente-abaladada, tem a excepção mais clara no tema que encerra o disco, uma “Mané-Mané” atipicamente dançante. É mais um bom Fachada, mais um óptimo trabalho do mais inspirado cantor-compositor português, refinado artesão na arte de cruzar melodias eficientes com letras genuinamente únicas.


PS: Há ainda uma espécie de epílogo, uma pequena faixa escondida, onde Fachada se dirige aos haters: “(...) tentas muito compreender / o que acabou de acontecer / se ainda assim eu não consigo te agradar / então usa a vida para viver”. Não há mais nada a acrescentar.


Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
15/12/2011