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Manuel Mota Dias das Cinzas / Untitled

2011
Headlights


Tendo em conta o percurso profundamente personalizado que tem vindo a trilhar, começa a tornar-se uma tarefa cada vez mais desconcertante apelar ao racionalismo analítico perante a obra do Manuel Mota. Que mais fazer se não apelar aos mesmos trejeitos críticos de sempre? Se em Sings foi formalizado, de modo elegíaco, o abandono de um fantasma que há muito vinha a desaparecer, para dar lugar aos demónios interiores que já assombravam o soçobrar de Outubro, resta-nos agora um olhar apaixonado perante a via manuelina que o músico lisboeta tem vindo a traçar como uma desviante segunda natureza.

Afoito aos paradigmas mais estanques da guitarra em que isso implique um radicalismo formal, Mota assume a sensibilidade enquanto fio condutor único para recriar continuamente a sua própria linguagem sem esbater os princípios base dessa mesma (aquele fingerstyle nervoso mas elegante) numa música distinta. Aglutinadora de um conhecimento profundo da história do instrumento e das normas modais da tradição (sejam o rock, os blues ou o jazz), faz do momento a estrutura possível sem encarreirar por uma via hermética.

As minudências dessa idiossincrasia têm vindo a ser trabalhadas com determinado aplomb, num contínuo aberto a diferentes perspectivas que nunca se atropelam numa massa indistinta. Daí que cada opção não siga um raciocínio lógico em relação aquilo que a precedeu (tipo, em direcção ao silêncio/contenção ou vice-versa) nem corte em absoluto com tudo o que ficou para trás como via para uma reinvenção bruta. Antes, numa reordenação das coordenadas, sem grande planeamento estratégico aparente, guiada por motivações que apenas o Manuel saberá descortinar. A nós resta-nos apanhar o trajecto, sem grandes preocupações contextuais, aceitando a existência desta música como uma cartografia irresoluta.

Editados em simultâneo na sua Headlights, Dias das Cinzas e Untitled são marca indelével disso mesmo. Tomando como partida o facto de o primeiro ser um disco em guitarra eléctrica e o segundo em guitarra acústica, seria tentador comparar este díptico ao já citado Outubro. No entanto, enquanto nesse disco duplo, essas duas facetas eram espelhadas uma na outra, estes dois álbuns divergem em factores muito além da instrumentação, numa abordagem distinta que abre novas janelas sobre a sua música.

Neste ponto, Dias das Cinzas dá continuidade ao trabalho do músico em torno do pedal de wha-wha. Algo que vinha sendo trabalhado ao longo do ano transacto com alguma frequência (e que ainda hoje vai reaparecendo ocasionalmente) e que tem aqui registo perene. Menos Peter Green (pense-se mais no The End of the Game do que In the Skies) do que os concertos circa essa altura prenunciavam, Dias das Cinzas poderia ser um disco ambient não fosse o termo tão sofrível e aquilo que se ouve demasiado escorregadio para que se instale algum tipo de imagética ou funcionalismo wallpaper. Persiste um lado contemplativo, refreado por uma recusa esclarecida ao óbvio, numa panorâmica continuamente intrigante.

Construída em torno de notas lânguidas, a música em Dias das Cinzas permanece em suspenso, algo dolente na progressão e com uma reveladora noção de espaço a enformar a melancolia subreptícia (está patente no título) que se vai soltando com parcimónia. Aquele feitio baladeiro que se lhe reconhece a evocar a melhor letargia de uma tarde de domingo, a tender para um conforto que nunca se deixa entorpecer.

Por comparação, Untitled é um disco mais exigente, mas também mais recompensador. Desde logo, a via acústica insinua uma maior “pobreza” que se traduz num som mais oblíquo e fragmentado. Menos tentativo do que em Outubro, o fingerstyle aparentemente desamparado vai desembocando em pedaços de melodia assombrados pelos fantasmas pueris da country e dos blues. Um jogo de tensão permeável a todas as noções de ataque, timbre e harmonia ao qual o corpo da guitarra confere uma enorme expressividade. Notas em diálogo com o silêncio circundante, longe dos maneirismos austeros do near silence ou da condição estéril do lower case.

Enquanto ainda não apanhámos com um Manuel Mota acústico em palco, Untitled funciona na perfeição como documento desse desafio. Uma pérola discreta que se vai revelando cada vez mais importante sem qualquer punch efémero. Como é apanágio da obra do músico. A cagar no score, na ciência e na racionalidade, em busca da melodia espontânea. Aquilo que verdadeiramente interessa, cada vez mais. Não está aqui o futuro de nada, mas atesta-se, novamente, o óbvio. E isso está escancarado na introdução.


Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
18/11/2011