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The Kills Blood Pressures

2011
Domino Records


Palavra que assenta nos The Kills que nem uma luva: riff. A designação encontra-se ao alcance de qualquer um, mas nem todos são capazes de a tornar real. O dueto norte-americano, à semelhança de mais uns quantos, foi-nos habituando de tal forma que podíamos afirmar, sem hesitar nem um pouco, que parece fácil fazer as coisas assim. Conclusão: é fácil, claro, se for feito assim. E poucos há a fazê-lo como os The Kills.

Aliadas a estas guitarradas interminavelmente contagiantes estiveram desde sempre as drum machines, à falta de baterista – ou por pura escolha da banda. Mas se há coisa que salta ao ouvido em Blood Pressures é a presença de baterias acústicas, mais a puxar para o rock cru e duro (talvez devido a experiências recentes como Dead Weather, com Jack White), o que indicia uma humanização progressiva da sua sonoridade – se é que isso é possível.

A estória aqui, e têm-se repetido os casos, é a forma como se ultrapassa o disco anterior, tão bem sucedido e um dos melhores discos de rock da última década, Midnight Boom. Os The Kills nasceram a mamar riffs, nunca fizeram outra coisa e, claro está, tudo o que não queriam era aborrecer-nos. E não o fizeram. Blood Pressures apresenta novas roupagens sonoras, não só pela já referida inclusão de baterias acústicas, como o formato das canções é também mais diversificado. Se no disco de 2008 já lhes tínhamos conhecido as baladas, agora é a ressaca amorosa que nos chega, com amor sujo de fuzz e overdrive. São lágrimas de felicidade, senhor.

Defequemos, juntos, nas comparações a White Stripes ou a quaisquer outros duetos. Os The Kills têm uma identidade, um ADN assente nas guitarras do britânico Jamie Hince – afinações atípicas, distorções divinamente combinadas com delays, ingredientes que por si só valem pouco, se as linhas melódicas em que se aplicam não forem dignas. São mais que isso, até: “Satellite” é daquelas faixas que ficam, acreditem, e que damos graças por aparecerem na nossa vida.

E se não são as seis cordas do instrumento mais fácil de aprender a definir o rumo do tema, eis que temos Alison Mosshart (não é descendente do Wolfgang Amadeus), com toda a sua selvajaria e irreverência, sujidade quanto baste. É isto que gostamos nos The Kills. E que venham mais anos, mais fuzz, mais riffs.


Simão Martins
simaopmartins@gmail.com
26/04/2011