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Jan Bang / Akira Rabelais ...And Poppies from Kandahar / Caduceus

2010
Samadhi Sound / Flur


Em 2009 David Sylvian regressava à actividade musical com a edição de um brilhante disco. Manafon não era apenas a continuação do já aventureiro Blemish, resolveu aí ir bem mais além, colocando em confronto a sua voz sobre tapetes instrumentais descontroladamente improvisados, com a contribuição de convidados de topo: Evan Parker, Otomo Yoshihide, Fennesz, Keith Rowe, John Tilbury, etc. O disco foi então publicado através da sua própria editora, Samadhi Sound, que mantém um catálogo reservado: além de Sylvian, a Samadhi editou trabalhos do seu irmão Steve Jansen e de poucos artistas mais. Percebe-se então o grau de selectividade da editora.

Em 2010 a Samadhi Sound apostou em dois discos que, apesar das diferenças de processos de produção, encontram naturais similitudes no resultado final. Jan Bang e Akira Rabelais desenvolvem, cada um com os seus mecanismos, paisagens atmosféricas que funcionam como espécie de tapete sonoro. Em ...And Poppies from Kandahar Jan Bang tece uma electrónica ambiental luminosa, subtil, suave, terna. Apesar de se situar numa mesma onda paisagística, o trabalho de Akira Rabelais, Caduceus, contrasta com Bang, por embarcar numa toada mais nebulosa, mais suja, cinzenta.

Mais acess√≠vel, Kandahar √© um disco solar, que vive numa permanente acalmia. Este √© o primeiro disco de Jan Bang em nome pr√≥prio, depois de acumular experi√™ncia com o genial trompetista e compositor Jon Hassell. Aqui os apontamentos instrumentais s√£o controlados e minimais, as contribui√ß√Ķes de cada instrumento (e este disco conta com convidados de luxo como o pr√≥prio Hassell, Arve Henriksen ou Nils Petter Molvaer) s√£o trabalhadas e recontextualizadas num meticuloso tecido. O resultado √© um coerente e dolente emaranhado de sons, esp√©cie de cobertor aconchegante.

O americano Rabelais não é um novato, este é o seu sexto disco. A rudeza Caduceus, oferece mais resistência: por vezes há sons esparsos da guitarra, outras vezes entramos num drone, outras vezes somos absorvidos formigueiro, balançamos na turbulência. Este disco leva mais tempo para nos seduzir, mas vamos sendo conquistados pela sua deliciosa tensão. E quando lá chegamos ficamos completamente embeiçados, não há volta a dar.

No acumular das suas diferen√ßas, ...And Poppies from Kandahar e Caduceus complementam-se de forma improv√°vel. Bang e Rabelais servem-se de diferentes metodologias, mas os resultados funcionam pela complementaridade. Entretanto acaba de ser editada Sleepwalkers, compila√ß√£o de revisita√ß√Ķes electr√≥nicas do trabalho de Sylvian. Certamente, far√° tamb√©m muito sentido ao lado desta dupla.


Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
04/02/2011