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M√£o Morta Pesadelo Em Peluche

2010
Universal


Muitos ter√£o sido aqueles apossados pelo medo quando em 2007, durante uma actua√ß√£o em Paredes de Coura, Adolfo Lux√ļria Canibal anunciou que os M√£o Morta abandonariam o rock. Desde logo o pensamento verteu para a hip√≥tese mais tem√≠vel, a de um suposto fim da banda. Felizmente, tais teorias da conspira√ß√£o foram invalidadas pela apresenta√ß√£o de Maldoror, espect√°culo baseado no livro com o mesmo nome, em que a m√ļsica se aliava ao poema, √† semelhan√ßa do que j√° havia sido feito em 1997 com Heiner M√ľller e M√ľller No Hotel Hessischer Hof. Depois deste projecto - que estava na calha h√° j√° algum tempo - e como forma de celebrar as suas bodas de prata, nada melhor que ver os M√£o Morta regressar ao bom e velho rock n¬ī roll.

Pesadelo Em Peluche, embora diste daquilo que os M√£o Morta conseguem de melhor, coloca o rock em colis√£o com a literatura (desde sempre indissoci√°vel da banda de Braga), neste caso tendo como inspira√ß√£o J.G. Ballard e The Atrocity Exhibition, uma cr√≠tica ao papel dos media no desenvolvimento da personalidade individual, tamb√©m presente na l√≠rica de Adolfo Lux√ļria Canibal em temas como "Teoria Da Conspira√ß√£o", spoken word sob riff met√°lico que se l√™ e ouve como um olhar psic√≥tico a um qualquer telejornal. Ali√°s, como em qualquer disco dos M√£o Morta, a aten√ß√£o prende-se por defeito nos escritos de ALC, muito provavelmente o melhor letrista portugu√™s no activo; atente-se √† pura poesia presente em "Tardes de Inverno" (A raiva homicida que vem na bebida / Dos tristes sem lar por que lutar / √Č prosa fiada em mesa dourada / √Č sonho sem ar para respirar).

Pesadelo Em Peluche √© um disco seguro e nenhum passo em falso, ou sinal de velhice. "Novelos da Paix√£o", tema introdut√≥rio, posiciona-se entre o lado mais pop dos M√£o Morta. "Tardes de Inverno" √© rock acelerado, apunkalhado. "Como Um Vampiro" explora o seu lado mais g√≥tico (e Fernando Ribeiro, dos Moonspell, d√° uma ajuda). "O Seio Esquerdo De R.P." cont√©m provavelmente o melhor e mais estranho refr√£o da hist√≥ria do rock em portugu√™s. Mas o melhor momento do disco (e da banda, nos √ļltimos tempos) est√° presente em "Tiago Capit√£o", hist√≥ria √©pica sobre a vida vivida com gosto e sem receios; a haver um cl√°ssico instant√Ęneo (como "Vertigem" em Nus ou "C√£o da Morte" em Primavera de Destro√ßos), ser√° certamente este e o hino final de vamos em frente, olho por olho, dente por dente. Um enorme regresso o qual apenas podemos caracterizar citando John Peel quando se referiu aos The Fall: "sempre diferentes, sempre os mesmos". Bem-vindos de volta.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
24/11/2010