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Octa Push Baluba EP

2010
Optimus Discos


Sem pressas. Assim têm firmado os seus passos. Porque tendo consciência que a pressa é inimiga da perfeição, nada mais os Octa Push têm feito senão dar ao tempo o espaço suficiente para a convergência das ideias necessárias a um disco em longo formato com o mínimo de integridade. Talvez por isso este novo pequeno disco, que a graciosidade de Henrique Amaro uma vez mais fez questão de apadrinhar juntamente com a Optimus, seja um primeiro e positivo indício do que aí vem, talvez já no início do próximo ano.

Baluba não é uma máscara nova para o duo de Carcavelos esconder material antigo, é sim uma consequência de um auto-desafio com novas concretizações onde apenas um único tema, já antes editado, volta a merecer espaço para existir. "Baila Mundo" (editado em 2009) bem poderia sentir-se, sem prelação, entalado entre a novidade desenvolvida no fim deste verão e encontrar-se desenquadrado na organização dos novos sons, mas não. Os manos Dizzycutter e Mushug não têm quaisquer pretensões de serem mais do que são e nesse sentido os novos relatos saído das máquinas dos estúdios de Carcavelos não quebram significativamente os dizeres do EP Deixa lançado pela Iberian Records o ano passado, sendo o resultado final de Baluba, acima de tudo, uma consolidação técnica de uma metodologia de criação.

A novidade volta uma vez mais a passar pelo crivo da chamada bass-music de tendência britânica – que congrega na sua bagagem tudo o que vai do dubstep ao dancehall ou do grime ao uk garage – em puro contacto com a cada vez mais sofisticada e assumida multiculturalidade que a história de Portugal nos ofereceu como legado para o futuro. Aí África tem tido nestes últimos anos uma influência nos destinos de muita produção lusitana. Sendo banal a comparação com os Buraka Som Sistema, é pela atitude de fundir as novas tendências com a tradição rítmica de África que passa o fundamental de muitos dos temas, tanto de um projecto como de outro.

Baluba é lacónico e directo tendo os olhos bem regalados apontados à pista de dança. Não mexe apenas no kuduro progressivo para por as nádegas a enxotar problemas do dia-a-dia, mas sabe que nos elementos mais sincopados de um broken-beat em contacto com um garage descompassado pode nascer um inconfundível e hedonista ritmo tribal digital capaz de animar o mais taciturno ser deste planeta.

Não há muita facúndia nesta música de dança dos Octa Puch ou uma verve ou uma espiritualidade que eleve a mente a patamares mais transcendentais. Esta música é para gozo puro do corpo e não para histórias de criacionismo de um qualquer deus em África. Ponto. Pequena excepção feita ao aromático “Gengibre” onde se ensaia uma modesta incursão mística pelo funk num empastado de cadências techno-step-funky – que decerto proporcionará novas realidades num futuro próximo. Promessas feitas; por enquanto o dance floor é mesmo o objectivo atingido com um conseguido e discreto frenesim de beats, palavras e sons 8 bit que eleva Baluba ao estatuto de disco com interesse e os Octa Push ao nível de projecto a ter em atenção em 2011. E sem pressas, o resto logo se vê.


Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com
15/11/2010