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Oval Oh EP

2010
Thrill Jockey / Mbari


A dívida que a música electrónica tem para com Oval vai além das marcas que o alemão (Markus Popp) deixou em cada uma das duas últimas décadas. Assim acontece porque Oval merece também ser reconhecido pela incrível sensibilidade demonstrada nos timings que escolheu para lançar discos e para deixar de fazê-lo. Como poucos, Oval soube retirar-se quando não tinha muito mais para acrescentar ao seu discurso, mesmo quando esse fervia como a revolução numa praça cada vez mais povoada por produtores armados com um laptop. A revolução comandada por Oval passava – imagine-se só – pela exploração (e aceitação) do erro como instrumento na composição. Os livros chamaram-lhe glitch e a sua génese remonta a 1994, ano em que Systemisch foi lançado pela influente Mille Plateaux, que entendeu, logo à partida, o valor de um disco criado a partir da manipulação microscópica de ruídos extraídos de várias superfícies de CD danificadas com caneta e outros utensílios. E, por mais que seja debatível a temperatura associado aos sons de Systemisch (hoje parece-me quente), a verdade é que Oval conseguiu formar escola com as suas atmosferas (ou anti-atmosferas) montadas a partir do mais ínfimo erro digital.

Por agora, não importa tanto reformular o que já está escrito acerca da influência de Oval, mas sim entender um pouco mais sobre o que leva Markus Popp a regressar aos discos depois de um silêncio de nove anos. Na música, como se sabe, nove anos é o tempo suficiente para dar um aspecto messiânico ao regresso de um nome desta importância. Durante o retiro de Oval, o campeonato da música produzida digitalmente ficou mais físico e quente, com o advento Timbaland, e a “febre” desencadeou acontecimentos altamente improváveis. Veja-se, por exemplo, como a Raster-Noton, catálogo de minúcia e blips para a cabeça, encontrou ultimamente alguns dos seus principais produtores (Byetone e Frank Bretschneider mais precisamente) num estado de espírito muito mais ligado ao hip-hop do que às linguagens habituais da casa. A versão 2010 de Oval ainda não assume tão descaradamente essa vontade de fazer dançar, mas Oh, o EP que assinala o regresso, inclui os primeiros registos de Markus Popp com uma guitarra e uma bateria nas mãos, instrumentos físicos esses que até aqui não ousava tocar.

O desejo de tocá-los, porém, já estava por toda a parte de Ovalprocess (2000) e Ovalcommers (2001): o primeiro emulava os sons da guitarra e do órgão, enquanto o segundo cuidava daqueles que reconhecemos ao trombone e a outros instrumentos de sopro. Agora que o contacto entre Markus Popp e os instrumentos acontece realmente, um título como Oh poderia até fazer crer que o acidente e o erro estavam de regresso com um dos seus principais especialistas. Não parece, mesmo assim, ser essa a situação do EP, na sua divisão entre temas mais longos (que lembram uns Tortoise mais alienados) e miniaturas em que a guitarra soa como se estivesse a ser tocada pelos bicos de vários pássaros, tal e qual como a encontramos na capa (um modelo Les Paul, por acaso). Oh começa por ser uma grande pedra (um novo Oval em estado bruto) e depois vai soltando fragmentos. Faz isso com que as suas faixas de um minuto e pouco pareçam semelhantes entre si, mas geralmente indecifráveis (e inatingíveis) nos ritmos que extraem das cordas da guitarra.

Apesar das dificuldades (e distância) que impõe, Oh confirma uma vez mais que Oval retoma apenas o activo quando acredita na frescura e pertinência da sua matéria. Quando essa frescura (e estética) arrebanha quase cem novas faixas (o novo álbum duplo, O, inclui setenta), aumentam as suspeitas de que tudo isto possa afinal ser um manifesto apontado à banalização que a electrónica sofreu com a aceitação global de que toda a música criada num computador merecia esse nome. É quase como se Oval estivesse a questionar a falsidade e os automatismos do computador demonstrando toda a sua inventividade no tratamento peculiar que faz da guitarra. Esta renovação analógica e romântica não surge isolada num ano em que outro grande senhor do género, Wolfgang Voigt, recorreu ao piano (em Freiland Klaviermusik) para provar que a electrónica deve sempre ser um ponto criativo de partida e nunca de chegada. Porque chegar é acomodação e acomodação é morrer. Oval cultiva agora uns hábitos particularmente estranhos, mas vive seguro de que o deve fazer multiplamente. E uma convicção tão inabalável quanto esta não se encontra todos os dias.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
24/09/2010