bodyspace.net


Xiu Xiu Dear God, I Hate Myself

2010
Kill Rock Stars


São cada vez menos as dúvidas quanto ao facto de cada novo disco de Xiu Xiu aumentar o peso do compromisso na música de Jamie Stewart. Era esse, enfim, o preço a pagar por toda uma década preenchida por esta saga reconhecidamente triste no tratamento da trindade “família, política e sexo”. Depois de explorar exaustivamente esses temas, recorrendo a electrónica de choque e a música de câmara distorcida, Jamie Stewart atraiçoaria a companhia que adora miséria caso decidisse cantar as maravilhas da vida com uma guitarra acústica. Diante desse cenário, o fã típico de Xiu Xiu teria até legitimidade para pensar: ”andei eu todos estes anos a rastejar ao lado deste cabrão para agora ter de apanhar com o “disco alegre”…”. Dear God, I Hate Myself ainda não comporta esse tipo de traição, mas é o mais animado e impetuoso disco de Xiu Xiu até aqui, apesar de tudo o que se esconde além da superfície indicar precisamente o contrário.

Dear God, I Hate Myself não é, de facto, o tal “disco alegre”, até porque o índice de desgostos de Jamie Stewart parece ter dilatado desde que lhe medimos o pulso em Women As Lovers (que até abria com uma canção de amor). Nesse âmbito dos desgostos, somos, desta vez, obrigados a descobrir que efeitos teve a saída de Caralee McElroy (a prima determinante nos últimos três discos) na vitalidade e orientação da banda. E a verdade é que o (des)equilíbrio hormonal destes Xiu Xiu não é o mesmo sem aqueles momentos em que Caralee podia teatralizar o seu feminino com significante liberdade (como esquecer a marcha de emancipação “Hello from Eau Claire”?). Os próprios vídeos de estúdio mais recentes revelam um Jamie Stewart mais solitário e abatido. A essa fobia acresce outra imposta por um disco que o coloca de novo à prova. Jamie Stewart é ou não suficiente para manter a pertinência dos Xiu Xiu?

A necessidade de fugir a tudo isso leva a que Dear God, I Hate Myself seja um disco guiado a uma velocidade anormal (trava apenas na aproximação aos Joy Division com “Falkland Rd.”). Enquanto tantos outros álbuns alternavam entre a hi-nrg genética e algumas passagens compenetradas (próximas da oração), Dear God, I Hate Myself nunca chega a parar para reflectir sobre a sua tristeza. Se La Forêt passava às vezes por disco “pastilhado” para gente atormentada (além disso, é excelente para guiar de noite), Dear God, I Hate Myself parece desesperado em desfazer tópicos de angústia com a velocidade-luz das suas canções. Xiu Xiu clássico.

À semelhança do anterior Women as Lovers, a nova desventura de Xiu Xiu sofre com algumas decisões: Jamie Stewart parece ter apostado na estratégia do exagero (mil gongos e efeitos sonoros de Nintendo encapsulados em 3 minutos) a desfavor dos arranjos simples que fizeram de “Clowne Towne” e “Save Me Save Me” grandes canções intemporais. Mesmo assim, os méritos de Jamie Stewart como arranjista voltaram a estar salientes em faixas como “Hyunhye's Theme” ou “This Too Shall Pass Away (for Freddy)”. Dear God, I Hate Myself tem um valor próprio apto a crescer com o tempo. Há que saber suportar a megalomania e tentar a adaptação possível ao andamento destes Xiu Xiu. O rapaz odeia-se e seria quase imoral abandoná-lo agora.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
04/03/2010