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Leyland Kirby Sadly, the Future Is No Longer What It Was

2009
History Always Favours the Winners


Sadly, the future is no longer what it was √© um colosso de m√ļsica para o grande ex√©rcito de solit√°rios treinado pela Internet. Esse √© um dos fundamentos poss√≠veis para um objecto perfeitamente intrigante, que encaixa quase quatro horas de composi√ß√Ķes, na sua maioria, ultrapassando (largamente) os dez minutos de dura√ß√£o. E t√£o megal√≥mana estatura n√£o s√≥ desvia Sadly, the future‚Ķ de uma actualidade conformada, como reflecte a cegueira rom√Ęntica de algu√©m que n√£o est√° disposto a vergar-se √† comodidade retalhada do MP3. A execu√ß√£o de tal vis√£o implica, de facto, uma digest√£o demorada (s√£o quatro horas, afinal). Adequadamente, o grosso do disco faz-se de mat√©ria a ser processada por sensibilidades diferentes: sec√ß√Ķes de cordas emuladas por sintetizadores, melodias em decomposi√ß√£o, drones, desgaste, um piano dotado e anos de tristeza, obviamente.

O respons√°vel por tudo isto, Leyland Kirby, brit√Ęnico alucinado entretanto sedeado em Berlim, encontra outras explica√ß√Ķes para o triplo √°lbum, que come√ßou por ser um projecto de EP. Para ele, Sadly, the future‚Ķ √© autobiogr√°fico na medida em que reflecte a sua ideia do futuro, os seus medos, desejos e fraquezas. A partir de uma impressionante amostra, Leyland Kirby faz-nos crer que carregou sobre si o peso do mundo. Os cen√°rios que projecta envolvem uma ang√ļstia tal que o mais dif√≠cil √© compreender como podem sequer gerar calor emp√°tico. A verdade √© que existe uma luz que nunca se apaga quando o desespero cai como a noite (da mesma forma que a melodia nunca morre definitivamente por aqui). Ou seja, o mesmo tipo de optimismo circunspecto, que brilhava no escuro dos Swans e nos dramas de Angelo Badalamenti, resiste ao longo das quatro horas de Sadly, the future‚Ķ. E essa √© uma raz√£o suficientemente boa para colocar Kirby entre os Swans e Badalamenti.

Apesar de ser um artista extremamente grato (leia-se o blogue), James Leyland Kirby nunca deixou de fazer os poss√≠veis para ser esquecido ou tomado como um grande equ√≠voco: enquanto V / Vm e durante 2006, atreveu-se a lan√ßar um MP3 por dia, e, no papel de The Caretaker, esgotou as possibilidades de uma f√≥rmula (existe um disco s√™xtuplo!): distorcer os discos de sal√£o de dan√ßa da d√©cada de 30 at√© que n√£o sobrasse neles uma marca temporal espec√≠fica (essa anula√ß√£o √© outra das marcas de Kirby). Logo, era prov√°vel que, por essa altura, escassa paci√™ncia restasse para um corpo musical √† partida disfuncional e incomodativo pela sua ambiguidade (nunca √© absolutamente agrad√°vel ou desagrad√°vel). Ainda assim, Kirby j√° provou, mais do que uma vez, estar certo e √† frente do seu tempo: disponibilizou m√ļsica online por um pre√ßo √† escolha do comprador, muito antes do c√©lebre golpe dos Radiohead, e lan√ßa frequentemente edi√ß√Ķes luxuosas (formato em voga nos anos de queda do CD). Sadly, the future‚Ķ n√£o deixa de ter o seu qu√™ de tolo, √© certo, mas Leyland Kirby √© cada vez mais o criativo que torna direitas as linhas tortas.

O torto, neste caso, conduz muitas vezes ao imprevis√≠vel, num trajecto afectado pela desorienta√ß√£o de quem n√£o encontrou o futuro prometido pela Internet e pelos filmes de fic√ß√£o cient√≠fica mais ing√©nuos. Se tentarmos desenhar um paralelo, √© poss√≠vel reparar que Sadly, the future‚Ķ desfalece perante um enganoso ideal de futuro, tal como os Desintegration Loops, de William Basinski, desapareciam do espa√ßo f√≠sico em conson√Ęncia com a queda das torres, em Nova Iorque. Assim fragilizadas, muitas das composi√ß√Ķes soam ao √ļltimo f√īlego de algo que, em tempos, viveu em plena for√ßa: ‚ÄúI‚Äôve hummed this tune to all the girls I‚Äôve known‚ÄĚ, por exemplo, podia acompanhar o final de um filme chin√™s triste, enquanto ‚ÄúA Longing to Be Absorbed for a while into a different and beautiful world‚ÄĚ descreve a efervesc√™ncia t√≥xica verificada nos √ļltimos minutos de um apocalipse imaginado por John Carpenter. Esses e outros temas recordam tamb√©m a sensa√ß√£o de se ficar acaga√ßado com um filme bizarro na RTP2, nos tempos em que a televis√£o ainda metia medo.

Recuperando a Internet como respons√°vel pela profunda amargura aqui rendida, um disco t√£o neura como Sadly, the future‚Ķ n√£o destoaria como registo da aus√™ncia que sobra em f√≥runs e plataformas sociais desabitadas (Hi5?) ‚Äﬨ ou isso ou um novo marco de m√ļsica new-age reinventada na merda. A assombra√ß√£o que paira podia at√© integr√°-lo nas muito discutidas no√ß√Ķes de hypnagogic pop e hauntology, mas a dimens√£o da obra transcende ambos os termos. Aqui est√°, se quisermos, o melhor ou o pior disco da d√©cada. Pouco importa: Sadly, the future‚Ķ neutraliza crit√©rios por ser essencialmente um investimento sem qualquer medo de passar ao lado ou de ser recebido como uma aberra√ß√£o. Destaca-se, isso sim, como um destemido e inventivo disco paradoxalmente incidente no medo e na arte do enfadonho. Felizmente, o futuro ainda √© capaz de nos surpreender com obras como esta.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
05/01/2010