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Black Lips 200 Million Thousand

2009
Vice


A verdade é que os norte-americanos não suportam um empate. Depois de tanta tinta dispendida com as agressões verbais e (depois) físicas, trocadas entre o puto-maravilha Nathan Williams, mentor dos Wavves, e Jared Swiley, dos Black Lips, exige-se um veredicto por knock-out. Se o critério privilegiar a entrega e a imunidade demonstradas em palco, a resolução só pode ser uma: a bravura rock dos Black Lips representa um redondo embaraço para Nathan Williams. Ele que, após ingerir um cocktail colorido de drogas, atirou a toalha ao chão, durante um concerto no Primavera Sound Festival de Barcelona. Tenrinho.

As escolas são, afinal, diferentes. Depois de dez anos em permanente digressão, os Blacks Lips ainda defendem a reputação de banda inesquecível ao vivo, mesmo que isso acabe por envolver pilas expostas em palco e tareia entre partes envolvidas (interactividade rock). Por esta altura, um concerto de Black Lips sem estrilho acaba por ser uma vitória do Benfica de Jorge Jesus sem goleada.

Essa rotina do caos alastra-se aos discos. Virando as costas ao aspecto mais polido e adocicado de Good Bad Not Evil, e recusando a popularidade fácil que obteria se fosse uma réplica desse, o quinto disco 200 Million Thousand reflecte a electricidade descontrolada e o espalhafato que fizeram da banda uma instituição do YouTube (o legado é infinito). No fundo, é provável que os Black Lips tenham retomado a garra psicadélica dos primeiros tempos, só porque é bem mais divertido foder a cabeça do lado menos ordeiro da fronteira estética.

Fazendo jus a esse postura de fora-de-lei, 200 Million Thousand é um disco de pantanas e o mais imprevisível na carreira do quarteto de Atlanta. O seu ânimo varia como o temperamento sexual de uma Madonna indecisa entre ser puta ou mãe: mete a quarta mudança do surf-rock logo na segunda faixa (“Drugs”), semeia Woodstock por toda a parte da psicadélica “Let It Grow” e cria um hino para os mesmos bêbados de sempre, com “I’ll Be With You”. Quando dobra a metade da sua duração, já assegurou o seu território como um dos mais animadores discos do ano.

Os Black Lips merecem essa e outras medalhas. À mesa, durante um pequeno-almoço trivial, Jules Winnfield e Vincent Vega, os justiceiros de Pulp Fiction, diriam que os Black Lips são porcos com personalidade. Só com um despropósito muito peculiar se chega a um refrão como o de “O Katrina!”, a peça-chave de Good Bad Not Evil, que lamentava a maldade do furacão que abalou Nova Orleães, em 2005. 200 Million Thousand está pejado de porcalhice e revelações (hip-hop mamado em “The Drop I Hold”) e parece, mesmo assim, um grande disco de velha escola. Quando tudo aparenta estar resolvido, ainda há fôlego para os riffs-matadores de “Again & Again” e “Body Combat”. E esses são gigantes. O segredo dos Black Lips é nunca acenar a bandeira branca.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
09/10/2009