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The Field Yesterday and Today

2009
Flur / Kompakt


Mesmo antes de permitir conclusões relativas à sua validade musical, Yesterday and Today é absolutamente vitorioso na vibração e ambiente que sugere. A missão nem sequer se adivinhava fácil para Axel Willner, depois do super-híbrido From Here We Go Sublime ter cumprido os seus deveres enquanto disco de dança e alcançado nota de mérito em extra-curriculares como o shoegaze e a intuição pop (de “Everday”, por exemplo). Aliadas, as expectativas – dos rendidos à dinâmica deste tecno e de quem venera o seu travo indie - podiam empurrar Axel Willner pelo caminho da inovação forçada ou da dissecação da fórmula. Em duas palavras, Yesterday and Today é um sonante alto aí! ou um ainda não: The Field necessita de mais uma hora para lavrar um terreno ao qual não falta o fertilizante da casa (as repetições empilhadas em torre) e aquele que se pede de empréstimo à década de 80 (para micro-samples depois ampliados por manipulações diversas).

Yesterday and Today está bem onde está. Em certa medida, é um disco que garante elasticidade (e minutos) aos seus temas como o veraneante que oferece a si próprio mais uma hora de lazer entre mulheres atraentes e cocktails. Pela mão de beats que fantasiam o fulgor físico da bateria e de percussão inversamente apontada ao rigor do digital, ficamos perto de uma estadia na Mansão Playboy vivida como experiência cerebral e nem tanto como serão kitsch musicalmente conduzido por Dimitri from Paris (produtor igualmente bem-humorado).

Toda esta sugestão de lascívia oferece lógica às fotos promocionais recentes, em que Axel Willner surge com a aparência de ídolo porno clássico, um heróico homem de ferro. À sua imagem, os temas de Yesterday and Today progridem como se estivessem enfeitiçados por um transe tântrico com princípio, meio e fim. Mais do que uma vez, The Field trabalha o clímax durante o tempo que entende, até que, no último minuto pós-orgásmico, surjam o vibrafone e o tambor de aço como instrumentos de frescura e descompressão (e é lindo quando isso acontece). Excepcionalmente, o tema-título “Yesterday and Today” reformula a cumulação The Field, de modo a aliar o bombear rítmico de Alex Willner ao do baterista John Stanier (a máquina biónica dos Battles), numa sequência de dupla penetração inevitável em filmes como este.

Contudo, as ligações entre Yesterday and Today e os filmes podem até ser mais nobres que essa. Depois de ter sido reinterpretada por Beck, de modo a servir ao filme O Despertar da Mente (realizado por Michel Gondry), “Everybody’s Got To Learn Sometime”, êxito new-wave dos Korgis, volta a cair nas mãos de um desconstrutor pop: desta vez, Axel Willner aproveita fracções de segundo (a medida certa para o sueco) do original para criar a ilusão de movimento (e euforia) numa música que não dá mais que três passos sem depois voltar atrás. Yesterday and Today, tal como O Despertar da Mente, demonstra como a revisão exaustiva de determinada relação pode ser reveladora na altura de decifrar e aceitar o verdadeiro afecto. Alex Willner aceitou o afecto pela música que o formou e que, inevitavelmente, elaborou o seu presente. Com isso, criou um dos mais agradáveis discos do ano. Depois de um ontem e de um hoje assim, o amanhã só pode ser o melhor.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
12/06/2009