bodyspace.net


Mountains Choral

2009
Thrill Jockey / Mbari


Pela surpresa provocada no ano de 1999, √Āg√¶tis Byrjun dos Sigur R√≥s obrigou a um esfor√ßo suplementar todos aqueles que procuraram compara√ß√Ķes para um disco incompat√≠vel com cataloga√ß√Ķes. Muito se falou em anjos e nas suas l√°grimas, em sensa√ß√Ķes intra-uterinas e nos glaciares ‚Äď criou-se um ide√°rio contagioso de imagens que fez de Reiquiavique um destino a considerar pelos aficionados da m√ļsica islandesa e casais hipster. At√© ver, √© pouco prov√°vel que Choral fa√ßa o mesmo pelo turismo de Brooklyn, nem que seja por ser mais discreto. Ainda assim, Choral √©, tal como √Āg√¶tis Byrjun, disco ca√≠do de parte incerta que, na posi√ß√£o de maravilhoso catalisador, provoca uma atrac√ß√£o dif√≠cil de se explicar em duas palavras.

Mais f√°cil ser√° identificar os respons√°veis por este pequeno milagre: s√£o eles Brendon Anderegg e Koen Holtkamp, metades de relev√Ęncia equivalente nos Mountains e na gest√£o do selo Apestaartje, ultimamente adormecido mas sempre aconselh√°vel na sua especializa√ß√£o electro-ac√ļstica (que alberga discos de m. r√∂sner e minamo, entre outros). A mesma electro-ac√ļstica agrupa os instrumentos usados em Choral (sintetizadores, acorde√Ķes, etc.), mas pouco ou nada adianta sobre 50 minutos de m√ļsica inexplicavelmente bals√Ęmica.

Tanto quanto se sabe, Brendan e Koen gravaram grande parte deste terceiro √°lbum (na conta dos Mountains) em tempo-real e diante de um p√ļblico. E isso percebe-se pelos melhores motivos: na rede de loops amplos, que arrasta consigo um cardume imenso de detalhes e tilintares ac√ļsticos, Choral faz durar as suas partes at√© ao limite da sobreexcita√ß√£o que provoca. Muitas vezes em pouco tempo, acrescente-se - da√≠ que essa generosidade seja capaz de causar algum desnorteio. Um desnorteio desej√°vel. Haja ent√£o vontade para estar ao lado dos Mountains, enquanto Choral simula naufr√°gios de guitarras ac√ļsticas em mares de ru√≠do branco (‚ÄúTelescope‚ÄĚ), a cegueira do deserto, a perdi√ß√£o temporal de William Basinski (com a deteriora√ß√£o transformada num florescer conjunto) ou a evapora√ß√£o de uns Jane (Noah Lennox a quebrar cocos ambient com DJ Scott Mou). Ou ent√£o ‚Äď muito simplesmente - Durutti Column entre as sereias.

No fim, a síndrome de Reiquiavique repete-se e faltam as palavras exactas para descrever Choral, uma espécie de Neptuno Machine por aproximação àquela caixinha que os chineses transformaram em fenómeno. Sabendo que é sumarento, fiquemo-nos por disco filho da fruta. Isso, filho da fruta.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
11/05/2009