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Manuel Mota Sings

2009
Headlights


Dado o papel transgressor e profundamente inspirador de Derek Bailey enquanto arauto das músicas livres, tornou-se uma quase inevitabilidade referencia-lo sempre que se contextualiza o papel de um guitarrista no mundo da improvisação. Manuel Mota, tem sido, também ele refém desse mesmo fantasma. O caso toma contornos ainda mais auto-explicativos quando o próprio Bailey lhe teceu merecidos elogios. Se, dada a idiossincrasia do mestre, esta situação não terá de ser necessariamente depreciativa, Mota já há muito que conquistou um lugar de pleno direito enquanto explorador das seis cordas. A verdade é que todos aqueles cujo interesse pelo instrumento vá para além da realidade conforme devem alguma coisa a Bailey. Todos.

Desenvolvendo uma linguagem extremamente personalizada, o guitarrista português situa-se hoje num lugar único no panorama das linguagens improvisadas. Longe de coordenadas referenciáveis, Mota gravita em torno do seu próprio mundo, numa expressividade sem paralelo com qualquer outro guitarrista da actualidade. A sua obra só poderá ser comparada consigo própria. Numa esfera, onde as comparações com Bailey deixaram já de ser conclusivas ou mesmo prementes, servindo apenas enquanto meras matrizes para para a compreensão do objecto guitarra enquanto meio comunicacional.

Dando continuidade à exploração de territórios próximos da balada experimentada no anterior Outubro, Mota vai delineando andamentos imprevisíveis plenos de lirismo, sem ceder a mostras de virtuosismo desnecessárias, nem entradas pelo desconstrutivismo autista. Longe das premissas vazias da guitarra jazz (instrumento mais mal utilizado de sempre no género), Sings plana sobre o seu próprio silêncio numa contenção de extraordinária beleza, enquanto acaricia a memória dos blues apaixonadamente. Se estes vestígios já enformavam o esparso Outubro, em Sings resplandecem de forma menos tensa do que no seu predecessor (que era particularmente notório no mais tentativo lado acústico). Maravilhoso respirar de notas suspensas e irrequietas (paradoxo este apenas aparente, na sua obra) por entre o silêncio circundante, os cerca de 33 minutos de duração destas oito faixas, vivem num desconforto envolvente de beleza cristalizada.

Álbum imaculado, de labor apaixonado, Sings nunca poderá ser visto como um retrato definitivo de Manuel Mota numa obra de descoberta constante, aversa a conclusões, mas constituí sem dúvida um dos documentos mais deslumbrantes do aqui e agora da música mais libertária. Essencial e único, Sings é reflexo de Mota. Derek Bailey que descanse em Paz.


Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
23/04/2009