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Junior Boys Begone Dull Care

2009
Domino


A pop raramente tem dias felizes. É um facto. Mas as excepções lá vão surgindo para gáudio dos que ainda apreciam a simplicidade de uma linguagem popular que privilegia a expressão dos sentimentos, e a vida em geral, sem subterfúgios hipócritas promovidos pelos cheques milionários e sem segundas intenções. Música pop de alma e exposta às circunstâncias da vida – boas ou más – ou fragilizada pela voracidade de uma sociedade em declínio. Aí é inegável a prestação de Jeremy Greenspan e Matt Didemus. Singela mas regularmente prestável na limpeza de ouvidos e na purificação do espírito.

A sua música, mantendo alguma da pureza da electro-pop de 80, com declarada escola OMD, Depeche Mode, Soft Cell ou The Human League vive num turbilhão de pequenas contradições que não nega as cadências techno que convidam à dança, tal como, e na mesma proporção, mergulha num mar se sedutora melancolia. E haverá no entanto uma constante, tanto neste disco como na discografia em geral: a simplicidade melódica e uso racional dos sintetizadores numa textura techno que não aprecia excessos. Parte da narrativa fica a cargo da frágil e competentíssima voz de Jeremy Greenspan. É aliás na voz de Greenspan que está o principal segredo deste projecto canadiano que, e no caso deste novo álbum, não desafia radicalmente as propostas apresentadas em So This Is Goodbye mas que sabe contorcer-se para não cair na facilidade da repetição.

A produção, sóbria q.b., revela a proficiência habitual, mantendo-se a demanda pela harmonização da programação; Begone Dull Care prossegue a tarefa de humanização da electrónica, tal como mantém o objectivo de tornar orgânico o que por natureza é maquinal. «Dull To Pause» ou «The Animator», de longe os temas mais arrebatadores, demonstram exactamente essa ideia promiscua num exercício onde o espírito humano se envolve amorosamente com o software do equipamento.

Não há por aqui qualquer milagre ou mais-valias de excepção já que So This Is Goodbye iniciou o que aqui é explorado com um pouco mais de profundidade. Independentemente de se tratar de um exercício de limar de arestas será sempre pertinente admitir que os Junior Boys, não se superando a si mesmos, oferecerem ao mundo mais um digno disco pop capaz de resgatar um genuíno sorriso à cara mais sisuda.


Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com
13/04/2009