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Byetone Deathofatypographer

2008
Raster-Noton


Não é comum que a perspectiva face a um álbum dependa tão directamente da forma como o seu título é apresentado graficamente. O título Death of a Typographer assim surge escrito no catálogo da Raster-Noton, mas transforma-se em Deathofatypographer na lombada e frente do disco físico. Tais detalhes, próprios de criativos formados por uma escola multimédia, proporcionam uma forma altamente sugestiva de apresentar o conteúdo da mais recente artimanha planeada por Byetone (conhecido como Olaf Bender pelas autoridades alfandegárias) - como se o descuido na dactilografia do título servisse como símbolo da eficiência e fertilidade do glitch quando toma de assalto um escritório, sem ser perseguido por qualquer vigilância ou lei.

Deathofatypographer subverte a seu favor o provérbio, que passa a ser lido como Patrão fora, dia santo para o glitch na loja. Por patrão, entenda-se toda a etiqueta e ortodoxia que condiciona os movimentos de uma electrónica que, em liberdade, prefere ser abusiva e musculada, conjugando uma carga anormal de graves (activados como bigornas) com a irreversibilidade de um conjunto temível de mecanismos minimalistas (rotações de loop efectuadas num só sentido maquiavélico, ritmos rígidos como o frio invernal de Berlim). Por glitch, leia-se – aqui, tal como noutros contextos - tudo aquilo que escapa ao cálculo do computador quando o erro é forçado ou estimulado. O glitch faz com que a aparente homogeneidade de Deathofatypographer sofra desequilíbrios e surtos temporários de desfoque (em toda a parte de “Capture This (Part 2)”), que ameaçam, a qualquer momento, desencaminhar a electrónica da sua progressão mais lógica.

Deathofatypographer é, todavia, um disco decidido nos objectivos que traçou para si: chega a ser tão obcecado por cumprir a sua missão de modo gratificante, que quase parece o equivalente espacial para a série Maré Alta (nádegas e imbecilidade em horário nobre), com dois robots a verter óleo em vez de dois marujos com espuma nos cantos da boca. A faceta mais chula de Deathofatypographer interfere com as fragilidades da sua electrónica mais decidida. Quem escuta, acaba sempre por ser vítima (in)voluntária num campo de guerra sem saída, tantas vezes reservado a fuzilamentos tremendos como “Plastic Star” (peça basilar que havia já resultado em excelentes remisturas de Alva Noto e Sleeparchive). Todos ganham neste dia santo dominado por um glitch endiabrado. Todosganhamnestediasantodominadoporumglitchendiabrado.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
04/09/2008