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Smashing Pumpkins Mellon Collie and The Infinite Sadness

1995
Virgin


Como música (por vezes ruído) de fundo daquele conjunto de acontecimentos chamado adolescência, os Smashing Pumkins foram essenciais. Estiveram presentes em tantos momentos quase-mágicos. Nos fins de tarde por dentro dos lençóis, em naves espaciais inacessíveis, e nas festas onde aconteciam descobertas, onde lentamente respondíamos pelo nosso presente. Por tudo isto os SP merecem esta não-‘review’, este acordar do fundo do baú. Por tudo isto o papel do crítico é um limbo. Este álbum não tem nota, não o meço, não o avalio. Escrevo sobre ele porque, ao retirá-lo da camada de pó que o aprisionava e colocá-lo na aparelhagem, lembrei-me, de repente, do que significavam os minutos de cada música, transmutados para há alguns anos atrás, e muito provavelmente ouvidos da alvorada ao crepúsculo (“tonight tonight”, “cupid de locke”, “porcelina of the vast oceans”), e deste às profundezas da luz estelar (“thirty-three”, “1979”, “stumbleine”).

Quem não se lembra das horas eternas dos 14, 15, 16 anos, em que a passagem vagarosa para a escuridão das estrelas apenas significava a continuação, ou o início, da troca de palavras e sensações com os amigos? Essas horas foram, para mim e para um imenso grupo muito para além do grunge, preenchidas pelo “Siamese Dream” e por este “Mellon Collie”(de que é o follow-up), que nos suportavam e expandiam, através das suas palavras, tão de acordo com os sonhos de Verão e com as horas tristes de Inverno, e dos seus sons, agressivos para libertar as raivas incompreendidas e incompreensíveis e suaves e gentis para nos entregarmos de novo à nave espacial. Assim procurávamos também as raridades, os lados b, as histórias, o mito.

Hoje, que me esquecia deste álbum no meio de todos os outros, foi a noite onde crucifiquei o insincero, e onde descrevi os momentos indescritíveis da minha vida. O impossível é possível.


Post Scriptum: sendo este álbum tão impossível de avaliar, porquê a nota que dei? Tentei, por mais difícil que seja, distanciar-me e dar uma nota “neutra”, como se hoje fosse a primeira vez que ouvisse o álbum. Como se isso fosse possível. Por isso, faria mais sentido não dar nota at all.


Nuno Cruz
21/01/2003