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COH COH Plays Cosey

2008
Raster-Noton


Pode at√© j√° ter estado mais em voga aquele cen√°rio fict√≠cio que ‚Äď em termos gerais - encontra uma mulher no lugar de ‚Äúinstrumento‚ÄĚ √† merc√™ da obsess√£o de um cientista louco ou de um anfitri√£o fetichista. O cen√°rio apresenta-se por agora datado porque os exemplos imediatos encontrados para o mesmo s√£o tamb√©m pe√ßas que tiveram o seu tempo. Nesse sentido, vale a pena repescar o teledisco de ‚ÄúMary Jane‚Äôs Last Dance‚ÄĚ, em que o cantor Tom Petty encarnava um personagem sugestivamente necr√≥filo que maquilhava e vestia a gosto o cad√°ver da dama interpretada por Kim Basinger para, no final, confiar o corpo adorado ao mar. Apesar de tresandar a toda a patetice pr√≥pria dos anos 80, o filme Boneca Mec√Ęnica debru√ßava-se tamb√©m sobre as formas como podia uma mulher acomodar-se √† vontade ut√≥pica de um homem (neste caso, de algu√©m que, erradamente, julgava preferir a vers√£o-andr√≥ide de Melanie Griffith ao seu equivalente em ‚Äúcarne e osso‚ÄĚ). Existe, mesmo assim, o exemplo cl√°ssico: Tomb Raider e a no√ß√£o assente de que o seu fen√≥meno global encontra-se evidentemente ligado √† ideia de que, a um gamer aprisionado na timidez de uma Playstation, bastam apenas dois polegares e dois indicadores para colher um n√ļmero infinito de perspectivas √† voluptuosidade pixelada de Lara Croft.

Acumulando (e dignificando) alguns dos tra√ßos masculinos acima mencionados, COH encontrou em Cosey a Playstation dos seus sonhos mais h√ļmidos. Por COH, entenda-se, a partir de agora, Ivan Pavlov, guerrilheiro russo dado a t√°cticas vari√°veis e imprevis√≠veis, mas geralmente planeadas num laptop que ultimamente (em Strings) filtrou e manipulou o som recolhido a todo o tipo de cordas e que, desta vez, se concentra nas vocais que Cosey oferece ao presente disco. No lugar de mat√©ria-prima, Cosey serve para abreviar o nome a Cosey Fanni Tutti, obscuro chafariz de mil e uma facetas art√≠sticas que, com o avan√ßar do tempo, foram tabelando no dada√≠smo, m√ļsica experimental e auto-retrato pessoal (a conferir no muito revelador conjunto Time to Tell). Al√©m disso, quando se tem um passado ao lado de P-Orridge nos infames Throbbing Gristle e consider√°vel experi√™ncia no mundo da pornografia de √≠ndole mais sado-masoquista, √© compreens√≠vel que seja praticamente nula a intimida√ß√£o provocada pela carta-verde de que disp√Ķe COH no tratamento das manifesta√ß√Ķes vocais a cargo de Cosey, que as acumulou, durante algum tempo, numa esp√©cie de di√°rio sonoro das suas reac√ß√Ķes emocionais √†s mais diversas situa√ß√Ķes do dia-a-dia. O conceito √© basicamente esse, se bem que gerido ao jeito de disco de electr√≥nica sensorial incidente na manipula√ß√£o de componentes org√Ęnicas (inclu√≠das na sua forma reconhec√≠vel e irreconhec√≠vel). Sem que se quebre a tradi√ß√£o, a Raster-Noton volta a ter em m√£os uma polida p√©rola que reflecte tamb√©m o inabal√°vel √≠ndice qualitativo do seu cat√°logo.

A Raster-Noton ter√° tamb√©m exibido o mais gratificado dos sorrisos quando colocou os ouvidos sobre o dinamite de atrevimento que √© COH Plays Cosey, seja na sua desfragmenta√ß√£o dos sons de prazer feminino (reduzidos a uma primordialidade animal em "Mad"), no indiscreto levantamento voyeur de gemidos capazes de fazer corar a Cicciolina ou no aproveitamento do rubor abafado entre dentes que mordem uma almofada para aplica√ß√£o como revestimento de c√Ęmaras herm√©ticas de electr√≥nica cerebral. Para mais, COH Plays Cosey estoira noutros sentidos: pervertidamente, perfaz a ant√≠tese da pureza disciplinada que se adquire na catequese. Chega mesmo a incluir harmonias tubulares pr√≥ximas das que emitiria um √≥rg√£o de igreja, desde que profanado pelo esp√≠rito de uma mulher que vendeu a alma ao diabo em troco de uma maior facilidade na obten√ß√£o de orgasmos m√ļltiplos.

N√£o impressiona que Ivan Pavlov compare esta sua gest√£o engenhosamente m√ļltipla a um jogo de Tetris, atendendo a que existem momentos de acumula√ß√£o (ocasionalmente imperfeitos, como os espa√ßos que impedem uma linha de estar completa) que aguardam pelo momento certo (a pe√ßa recta) para preencher as 4 linhas de uma s√≥ vez. Ele entende bem que o sucesso deste inflamado di√°logo sexual depende de um timing exacto, ideias lubrificadas e estimula√ß√£o simult√Ęnea dos diversos pontos er√≥genos daquela que acedeu a confiar-lhe a sua voz. Com algum arrojo, √© poss√≠vel classificar COH Plays Cosey como obra-maior em termos de electr√≥nica-papanicolau (g√©nero algo secretista e pouco explorado) ‚Äď o que, simplificando as coisas, equivale a dizer que pode bem andar por aqui o disco de electr√≥nica que faltava para agitar as √°guas mais paradas deste ano.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
30/04/2008