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Pomassl Spare Parts

2007
Raster-Noton


Parte do alcance visionário da Raster-Noton respeita ao adiantamento que mantém em relação às necessidades do lazer futuro. As generosas colheita dos últimos dez anos constarão como reserva para consumo interno, assim que for atingindo um tempo em que a média semanal de saídas nocturnas do jovem urbano comum será apenas uma insignificância estatística. O fim de todas as festas de bairro, aglomerações de rua e contacto físico entre estranhos coincidirá com a adesão global aos catálogos que preservam actualmente a electrónica capaz de satisfazer maior número de carências sensoriais (se bem que essas também mudam com os tempos). É por isso que a electrónica de fundamento cerebral continua a ser o mais subestimado (e adiado) ramo da indústria de entretenimento caseiro e, por arrasto, a Raster-Noton uma marca ainda por conhecer o seu pico de popularidade. Provavelmente, já não faltará tanto tempo até que um disco típico da label alemã represente uma comodidade de entretenimento caseiro digna do seu legitimo lugar entre um filme de Tarskovsky e um daqueles lindos livros bilingues da série Improvised Music From Japan.

Pode até ser que nesse avançado dia, ainda preservado em incógnita, Franz Pomassl mereça o seu próprio santuário num qualquer lar adepto de terapias alternativas com inversos efeitos doentios. Isto porque Spare Parts encontra-se eminentemente próximo do que pode bem ser uma lobotomia disfarçada pela sua mais normal função “musical”, que, a bem da verdade, é bem mais que isso e nitidamente superante face à por vezes redutora designação do glitch (que, aliás, terá conhecido marco influente num Trail Errors lançado, em nome de Pomassl, no já recuado ano de 1996 – pouco depois do advento Oval). Custa até a acreditar que, segundo o que adianta alguma informação referente à estreia na Raster-Noton, Spare Parts tenha ganho forma a partir de peças incompletas outrora abandonadas, podendo só agora ser um disco de corpo inteiro – tão coeso, resistente e ajustado à vanguarda como se esperaria de um trabalho apresentado nestes termos.

Em relação a Pomassl, é comum reparar que não faz especial questão de ser muito amigável nas suas performances ou de poupar alguém dos seus ataques iconoclásticos (que transformam toda a electrónica “tenrinha” em matéria residual). Não se estranha, pois, atribuir ao “terrorista” austríaco a responsabilidade por tão malevolente operação cirúrgica quanto Spare Parts, que, após ultrapassada a normalíssima contagem decrescente “Nitro”, percorre com promiscuidade amanteigada todo o domínio da música digital orgulhosamente bastarda, quer pela quantidade de feridas que inflige com o diferencial súbito entre frequências altas e baixas (imagem de marca de Pomassl), pelo formigueiro provocado por micro-estruturas que sugam o sangue aos nervos ou pela poligamia exercitada no uso de vários sintetizadores de produção soviética perdidos entre o bolor de meados da década de 80 (embora sejam agora aproveitados como sondas programadas para testar os limites de quem escuta).

Todos os limites são depois desafiados quando surge em cena a gloriosa mind fuck “Terawatt Hours”, à qual se abre de bom grado os orifícios auditivos, para mais desenvolta perfuração de um ludibriante ping-pong de frequências extremas capaz de ameaçar seriamente a sanidade. O Bodyspace não se responsabiliza pelas casualidades ao alcance da tal "Terawatt Hours", que não podia ser melhor cartão-de-visita a favor de Pomassl e do apurado faro da Raster-Noton. Posto isto, não se subestime a possibilidade de ser o rosto de Franz Pomassl a ocupar o lugar do retrato do aiatola em cada lar religioso daqui a 20 anos. Existe uma forte hipótese dos seus discos virem ainda a servir como objectos de referência para gerações que decerto manterão maior empatia e proximidade com o disciplinado caos que por aqui abunda em quantidades indecentes.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
19/02/2008