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Nadja Touched

2007
Altern8


Surpreendem as sensa√ß√Ķes de voos altos e experi√™ncias astron√≥micas que proporciona o metal lentamente arrastado que mais habitualmente se associa a um plano t√©rreo. De certa forma, assim acontece porque a limita√ß√£o da superf√≠cie terrestre √© incompat√≠vel com a massa sonora que adensam institui√ß√Ķes ‚Äď ou exemplos √≥bvios - como os Earth ou os Sunn o))). Como quase sempre acontece no peculiar √Ęmbito das sonoridades de dimens√Ķes mais tit√Ęnicas, uma movimenta√ß√£o declarada em determinado sentido merece invariavelmente uma resist√™ncia arqui-rival, uma oposi√ß√£o quase f√≠sica oferecida por uma anti-mat√©ria. Serve isto para colocar √† esquerda e √† direita de um mesmo versus, os nomes de Jesu e o seu mais recente Conqueror e o de Nadja ladeado por este Touched.

Agora que Justin Broadrick transformou os fabulosos Jesu numa sonda em busca de lucidez e revela√ß√Ķes espirituais (ant√≠dotos de experi√™ncias mais t√≥xicas), Aidan Baker e Leah Buckareff antagonizam esse clarear com um disco que maximiza todas as sensa√ß√Ķes garantidas por uma viagem pelo subsolo que, neste caso, vais sendo perfurado por uma guitarra e baixo, e todo o turbilh√£o de distor√ß√£o circundante que faz com que soem os primeiros como os dentes do siso mais indesejados pelo Adamastor.

Para triunfar na execu√ß√£o de t√£o herc√ļlea tarefa, tem de ser volumoso o caule acumulado na gest√£o moribunda do drone que fende crateras e no ampliar de ru√≠do branco efervescente. Galactus, o vil√£o Marvel que devora planetas, tem em algu√©m t√£o prol√≠fico e s√°bio como Aidan Baker o seu Surfista Prateado que necessita apenas de uma guitarra para anunciar a vontade c√≥smica do seu mestre. A julgar pelo que se escuta em Touched, a vontade de uma qualquer entidade maior √© mesmo interromper a oxigena√ß√£o do c√©rebro com riffs circulares que progridem apenas no feedback, manifestar dol√™ncia atrav√©s de guturais e altamente manipulada vozes doom e, at√© mesmo, amea√ßar clausura indeterminada na programa√ß√£o inalterada de uma drum machine que marca os p√©s da besta na areia.

O transe imposto por um disco que nada faz por declarar a sua progressão (quase imperceptível ao longo de uma hora) impede que lhe sejam dedicados pensamentos finais muito elaborados. Aidan Baker persiste em não falhar e, com Touched, ameaça conquistar parte do território transcendentalmente negro que Justin Broadrick tornou terra de ninguém com o rumo mais melódico de Conqueror.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
17/07/2007