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Von Spar Von Spar

2007
Tomlab / Flur



Cabe √† imagina√ß√£o resolver o diferendo que instala a grotesca figura surgida na capa do disco hom√≥nimo dos alem√£es Von Spar. Isto porque n√£o se sabe ao certo se ter√° sido ela a percorrer uma maratona de exorcismo ou se ter√° mesmo ocupado o lugar do corpo beatificado. Assemelha-se um pouco a um Golem em agonia e exibe a marca (ou a posse) de duas cruzes. Em tra√ßos grosseiros, √© uma ‚Äúcoisa‚ÄĚ a que se procura respostas na senda de ofuscar o inc√≥modo que provoca a estranheza. A partir de uma perspectiva Hollywood ‚Äď e se j√° for tomado em conta o an√≥malo perfil musical dos Von Spar -, dir√≠amos que se trata de um Hannibal Lecter que trocou o gosto por f√≠gado com favas por um outro que o levou a devorar do avesso os mapas tra√ßados por Julian Cope no guia kraut Krautrocksampler e Simon Reynolds no j√° batid√≠ssimo Rip it Up and Start Again. A partir de duas romarias sim√©tricas na sua dura√ß√£o de 20 minutos cada, Von Spar √© o t√≠tulo que serve de cabe√ßalho ao diagn√≥stico da congest√£o que se apoderou do canibal que n√£o soube onde parar na hora de enfardar kraut-rock, p√≥s-punk e todos os ex√≥ticos condimentos que escolheu para os acompanhar.

Ninguém estranha ver um super-colectivo de alemães a abusar das suas possibilidades (como se de cerveja num aniversário), tal como já poucos serão aqueles que se surpreendem com a estadia de irmandade tão freak como esta na boa casa da Tomlab, que ainda recentemente documentou o bater das asas vampíricas dos Les Georges Leningrad e que conta também com uma antologia de electrónica portuguesa em catálogo. Desta vez, combina-se num só disco aquilo que podiam ser dois esclarecedores CD-r intencionados na evisceração de tudo o que de mais lá fora pudesse reservar a transição de 70 para 80: a falta de pudor assumida no saltitar estético, a santa noção impingida por Jah Wobble de que os 5 minutos eram uma barreira facilmente transponível quando ritmicamente lubrificada, a vantagem que confere o desportivismo non sense, que, no lado-B de Von Spar, chega a manifestar-se numa incursão pelo metal cornudo e, na recta final do lado-A, num totalmente assanhado momento que faz colidir new-wave e um punk sem espinhas na linha de Crass.

Temos, pois, um manifesto camale√≥nico apontado a contrariar as imposi√ß√Ķes da ortodoxia, um A a Z de fei√ß√Ķes em que nenhuma comete o descabimento de ser mai√ļscula sobre as outras. Ao contr√°rio de um espa√ßo spa normalmente reservado a terapias ben√©ficas para a sa√ļde, Von Spar cobre-se de um lodo imundo que soa desconexo ou linear conforme cada uma das perspectivas. N√£o se duvide contudo de que o bicho alem√£o morde quando ati√ßado.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
03/07/2007