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Amon Tobin Out From Out Where

2002
Ninja Tune


Eis-nos na presença da antítese perfeita do típico músico brasileiro. Desde cedo ausente do seu país natal (residiu na ilha da Madeira e actualmente está estabelecido em Brighton, Inglaterra) viveu rodeado de influências que nada têm a ver com samba. Felizmente.

Sob a designação de Cujo, lançou o seu primeiro trabalho (Adventures in Foam) pela pequena editora Ninebar. Desde logo deu nas vistas, ao ponto de a reputada Ninja Tune o recrutar imediatamente, corria o ano de 1997. Ao fim de três albuns, Amon Tobin era o artista que mais vendas garantia à editora inglesa. O que, mesmo ao lado de nomes como Cinematic Orchestra, DJ Food e Mr. Scruff, acaba por não ser de todo surpreendente face à singularidade da música com que Tobin nos tem brindado em albuns como Bricolage, Permutation ou o fantástico Supermodified.

Por tudo isto, era com grande expectativa que aguardava a chegada do novo trabalho.

“I wanted to make a very dense record; I wanted it to sound really gritty. I didn't feel like doing a smooth jazz affair: There's enough of that around already.”

À primeira audição decidi parar a meio, e disse para mim próprio: “É melhor ouvir outro dia... quem sabe”. Com outro estado de espírito, percebi que “afinal, é mesmo assim.”. Sem querer tirar conclusões precipitadas, não conseguia deixar de pensar nas saudades de um “4 Ton Mantis”, um “People Like Frank”...

Julgo que foi por volta da 5ª tentativa que consegui perceber que, mais que baralhar e dar outra vez, Amon Tobin enveredou sem hesitações por uma das multiplas vertentes que vinham caracterizando a sua música até aqui. Como sempre foi seu apanágio, os samples à volta dos quais são construídos os onze temas de “Out From Out Where” são de um bom gosto irrepreensível, mas desta feita Tobin deixou o jazz na gaveta e deu-se a outros devaneios. Como que uma saída definitiva de órbita, confirmada pelas boas-vindas que são dadas por “Back From Space”, primeiro tema do album e que funciona um pouco como elo de ligação entre o passado e o futuro (fará sentido escrever “presente”?). Ainda o drum n bass, mas ao mesmo tempo evidenciando uma dimensão que os trabalhos anteriores não apresentavam. É que, como o próprio nome indica, Amon Tobin parece mesmo ter ido ao espaço e voltado.

Está dado o mote, e uma vez dentro da nossa nave espacial, resta percorrer o sistema solar que nos foi apresentado. “Verbal”, com a voz digitalizada do MC Decimal R e beats invocando claramente o hip hop, foi o tema escolhido como single de avanço, não deixando margem para enganos: estamos perante algo de novo. Se em Permutation e Supermodified o caos era explorado de uma forma única, entrecortado por momentos de aparente acalmia que se encarregavam de concentrar toda a tensão que posteriormente desembocaria em mais uma torrente de percussões encadeadas a um ritmo alucinante, desta vez deparamo-nos com um ambiente profundo, misterioso e soturno como nunca antes, características acentuadas pelo tom orquestral de “Searchers” e “El Wraith”.
Mas numa viagem absorvente como esta, é claro que há onde descontrair e retemperar forças para o que falta percorrer. “Hey Blondie” e “Rosies” são os momentos menos atribulados da jornada, oferecendo uma panorâmica privilegiada sobre os objectos que pairam vagarosamente à nossa volta.

“Cosmo Retro Intro Outro” e “Triple Science” encarregam-se de despertar os mais descuidados, voltando à toada mais agressiva explorada nos primeiros temas, mas a um nível muito mais abstracto em que os diferentes sons se vão reproduzindo com uma frequência quase descontrolada.

A velocidade diminui. “Proper Hoodidge” encarrega-se de nos baixar a pulsação progressivamente, até à chegada a “Mighty Micro People” onde o ambiente torna-se mais ameno e etéreo, como que respondendo à necessidade de se respirar um pouco após tão movimentada experiência.

“Out From Out Where” talvez não seja o album que grande parte dos fãs de Amon Tobin esperavam. É um disco que dá luta e que surpreende mas que, uma vez descoberto, conquista o explorador. Perdão, o ouvinte.


Carlos Costa
10/11/2002