âĂ o caos, Ă© o caos, Ă© a mutação...â cantavam os ClĂŁ no ĂĄlbum de estreia âLusoQualquerCoisaâ em 1996. Os aplausos da crĂtica nĂŁo se fizeram esperar mas as reacçÔes ficaram por aĂ. Sem grandes entusiasmos por parte do pĂșblico poderia ter acontecido, como em tantas outros casos, uma precipitação por parte da banda para fazer um som mais âpopularâ. Mas como quem sabe que o reconhecimento nĂŁo estĂĄ de portas abertas sem algum esforço, os ClĂŁ souberam sempre esperar e trabalhar por forma a atingir um objectivo. Firmes num caminho muito prĂłprio, num paĂs onde o portuguĂȘs Ă© pouco usado na mĂșsica, conseguiram sempre contornar as dificuldades que lhes iam ao encontro atĂ© conquistarem em 2001 trĂȘs merecidos prĂ©mios. De uma sĂł assentada, o Blitz atribuiu, melhor Voz Feminina (Manuela Azevedo), melhor Ălbum do Ano (âLustroâ, 2000) e melhor Grupo do Ano. Estes galardĂ”es projectavam finalmente e merecidamente os ClĂŁ no panorama musical portuguĂȘs. Depois disto foram parte dos marcantes concertos com SĂ©rgio Godinho, jĂĄ passados a disco em âAfinidadesâ (2001). Essa colaboração viria a dar frutos em âLustroâ, disco que antecipa os ClĂŁ como uma banda fundamental no panorama pop/rock nacional.
MĂșsicas de amor e de bem vs mal, de sorrisos e danças na corda bamba, de sopros no coração e sangue frio, este disco apresenta um punhado das mais refinadas cançÔes produzidas no Portugal de fim de dĂ©cada (e sĂ©culo!). Com os arranjos a ficaram mais uma vez a cargo de HĂ©lder Gonçalves, as mĂșsicas apresentam-se maioritariamente segundo a linha dos instrumentos-base do rock. Com uma linha de continuidade de qualidade assegurada ao longo de todo o disco, as cançÔes apresentam-se como a mais fina pĂ©rola sonora. A voz de Manuela Azevedo Ă© uma delĂcia para os ouvidos, com a sua expressividade e ternura a fazerem-nos fazer repeat e repeat em diversas mĂșsicas. As letras, componente importantĂssima dos ClĂŁ, ficaram a cargo de Carlos TĂȘ, que volta mais uma vez a fazer um trabalho exĂmio. Como jĂĄ dito aqui no Bodyspace.net, o facto de se usar a lĂngua portuguesa permite que as cançÔes ganhem um estatuto diferente, passando nĂŁo sĂł a ter uma componente lĂșdica, mas tambĂ©m a fazer sentido. Esse Ă© um dos trunfos de todos quanto cantem em portuguĂȘs, talvez o maior. Presença igualmente marcante nessa ĂĄrea Ă© a de SĂ©rgio Godinho, que assina a letra de um dos mais belos momentos do disco: âSopro do Coraçãoâ.