RETRO MANÍA
Águas de colónia para usar e abusar.
· 04 Out 2013 · 15:22 ·
Aromas e perfumes inconfundíveis de Nico, CAN e Wolfgang Voigt.


Nem só de uma catedral gótica, escura, gigantesca e bela, vive a história de Colónia. A cidade alemã trouxe-nos o clássico dos presentes de aniversário, Natal e dia dos Namorados, a solução que faltava ao mundo certamente mal-cheiroso do século XVIII, uma fragrância que imortalizaria o nome da cidade em rostos, pescoços, pulsos e atrás da orelha de milhões de pessoas. Uns séculos mais tarde, deu ainda mais à orelhas, entrou-nos pelos ouvidos, em fragrâncias raras e inesquecíveis. Área de residência de Karlheiz Stockhausen que ali viveu muitos anos, é um local, como não podia ser dada a sua germanidade, pleno de música. Foi aí que nasceu Christa Päffgen, modelo, atriz, a Nico de Warhol, Lou Reed e John Cale, a “& Nico” do über- clássico Velvet Underground & Nico . Mas é depois, a solo, que o seu aroma nos inunda totalmente a casa, fazendo mais jus ao gótico negro da catedral e aos invernos de neve da sua liebestadt, numa discografia gélida e congelada no tempo (embora com Desertshore bem descongelado pelo projeto X-TG), que merece ser toda revista e ouvida de novo, ou pela primeira vez, consoante o seu caso. Álbum inteiro no Youtube? Só um, mas talvez o melhor deles.

A bela Colónia, Cologne para os franceses e ingleses, Köln para os amigos, também é a génese e o habitat de uma das bandas mais incríveis da história da música. Desde já, peço desculpa a quem está a pensar nos Floh de Cologne ou nos Triumvirat, originários de lá também. Falo obviamente dos CAN. Um grupo de músicos alemães carregados de imaginário musical do país, da clássica ao jazz, convertidos ao psicadelismo, em busca de uma linguagem global, que primeiro convidaram um artista plástico afro-americano para vocalista e mais tarde um performer de rua japonês. O seu primeiro concerto foi em 1968, ali nas redondezas, numa exposição de arte contemporânea no castelo de Noervenich. Chamou-se Prehistoric Future. O elo entre "Hunters and Collectors” no verde entrecortado por indústrias pesadas do Reno, e a cabeça lá longe, completamente na Lua. A partir daí, uma música à parte, quase irrepetível. Marcou muitos, de Eno a John Frusciante, John Lydon aos The Fall, Happy Mondays aos Radiohead. Até Kanye West já os samplou. Citando o imortal Fernando Magalhães, que um dia no jornal Público disse “Mestres do ritual e dos ritmos do corpo. (…) inventaram a música do espaço interior. No seu caso não faz sentido falar de música cósmica, mas sim de música microcósmica. O beat, enquanto átomo da hipnose.” Escolher os melhores discos de outra discografia totalmente obrigatória é difícil, como falar tão pouco deles dói no coração (só os CAN merecem 10 retromanias) mas, como quem tem várias águas de colónia sabe que há sempre uma que usa mais, o critério foi “o tal primeiro e raro concerto de 68 (atenção diggers), e outro, um dos muitos discos dos CAN que se encontram inteiros no youtube, talvez o disco que mais vezes ouvi na vida”.

Entretanto de Colónia para o Porto e para o Barreiro. Perdoem-me o pulo geográfico, mas outro seu cidadão essencial, Wolfgang Voigt, estará ou esteve - depende de quando vão ler isto - na Culturgest da cidade invicta e no OUT.FEST na margem sul do Tejo, com o seu kamerad Jörg Burger, juntos outra vez, depois de Burger/Ink, agora como Mohn. Mais um projeto, mais um nome, entre tantos que este espécie de Fernando Pessoa da eletrónica já teve: Auftrieb, Brom, C.K. Decker, Centrifugal Force, Crocker, Dextro NRG, Dieter Gorny, Digital, Dom, Doppel, Filter, Freiland, Fuchsbau, Gelb, Grungerman, Kafkatrax, Love Inc., M:I:5, Mike Ink, Mint, Panthel, Popacid, Riss, RX7, Split Inc., Strass, Studio 1, Tal, Vinyl Countdown, W.V., Wassermann, and X-Lvis. A estes nomes acrescenta-se a editora Kompakt, da qual é co-fundador. Mas o seu Álvaro de Campos é GAS, onde Voigt qual Wagner ou Schoenberg em câmara 800 vezes mais lenta, constrói sinfonias de loop em discos que ficam bem ao lado de Steve Roach, William Basinski e até Luc Ferrari, Penderecki e outros mestres da música contemporânea. Peças fascinantes que geram hipnose mecânica em todos os sentidos, atmosferas densas e enigmáticas de ilusionismo da alma absorvida em influências que Voigt cita nos títulos, como Thomas Mann da Montanha Mágica (Zauerberg em alemão) ou experiências lisérgicas nas florestas da zona na adolescência (Königsforst, uma espécie de Deutsches Pinhal do Rei). No youtube não encontrarão os discos na íntegra, salvo um, mas porque se trata de magia mesmo, procurem a caixinha mágica, uma anti-Pandora que ao abrir não traz nenhum mal, apenas o bem e o bem-estar; uma caixa para ouvir com todo o GAS, Nah und Fern.











Nuno Leal
nunleal@gmail.com

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