Jeffrey Lewis
Anikibobó, Porto
04 Fev 2005

Dos Estados Unidos para o Porto, Jeffrey Lewis. Dele dizem ser possivelmente um dos grandes talentos escondidos de Nova Iorque. Além da música – anti-folk – Lewis nutre especial carinho pela ilustração e pela banda desenhada, o que serviu para uma bem-humorada introdução da noite: David Herman Dune – que voou de Paris para marcar presença nos concertos do Porto e Lisboa - na guitarra lançou o mote e Lewis começou a exibir para toda a plateia um caderno enorme que ia desfolhando à medida que a história que contava ia avançando; uma bizarra história sobre um homem que vê o seu maior inimigo quase destruir-lhe a vida ao cortar-lhe todos os membros e atirar a sua cabeça para o fundo do mar. Resultado: agora, esse mesmo homem corre colina fora com a cabeça segura apenas por uma bota - bizarro, cómico e corrosivo. Foi assim que acabou o primeiro de três hilariantes “vídeos de baixo orçamento", como Jeffrey Lewis lhes ousou chamar.

© Paulo Martins

Seguiram-se canções. Bastantes canções. A voz de Jeffrey Lewis é expedita, desembaraçada e dispara frases a uma velocidade alucinante. É folk urbaníssima - numa das canções as palavras arremessadas concretizaram uma viagem pelas ruas de Nova Iorque e à vida que alguns têm de levar para conseguirem manter um apartamento -, cómica, irreverente. Alguns canções são tão descritivas e minuciosas que, por momentos, pareciam também elas verdadeiras bandas desenhadas, ou o seu equivalente mais próximo - o paralelismo é tão mais óbvio quanto mais caricatas são as histórias que conta. Pegou em It's the Ones Who've Cracked That the Light Shines Through - disco onde conta com a ajuda do seu irmão Jack Lewis e com o amigo Anders Griffin – para passar pela canção-evidência que é “You Don't Have To Be A Scientist To Do Experiments On Your Own Heart”, divertida constatação de realidades merecedora do carimbo “La Palisse”. E é por cada palavra de cada canção que se dá mais um passo por entre as ruas e os edifícios de Nova Iorque, e a experiência é recompensadora.

© Paulo Martins

No segundo dos filmes de baixo orçamento contou-se a história dos The Fall nas únicas formas possíveis a qualquer ser humano. Eis as palavras que melhor a descreveriam: caótica, hilariante, controversa, porrada, despedimentos, genial, porrada, expulsões, centenas de fãs absolutamente obcecados por todo e qualquer lançamento dos Fall, memorável, porrada, expulsões. Escusado será dizer que as gargalhadas foram muitas, num daqueles momentos que – extra concerto propriamente dito – fazem uma noite. David Herman Dune ofereceu a sua voz a alguns temas, Jeffrey Lewis ia adornando os temas com os ritmos sincronizados e matemáticos de um órgão manhoso que guardava junto aos pés. Juntaram até as suas vozes num ou noutro tema e riam, quais cúmplices, de um ou outro pormenor das histórias que se faziam ouvir. Nas palavras do próprio Jeffrey Lewis, o seu reportório encaixa variantes tão distintas como o “lo-fi folk" e o "sci-fi punk” e não está a brincar. De forma alguma. Não fosse “If You Shoot the Head You Kill the Ghoul” um passar a perna à folk para fazer valer o poder de ataques punk que ilustram ataques de zombies em fúria. Hilariante, furioso, notável. Houve tempo para um terceiro e último vídeo - tão longo quanto divertido - e mais uma última canção. Não chegou a uma hora de concerto e, no entanto, merecia uma noite inteira.

© Paulo Martins
· 04 Fev 2005 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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