Christina Carter / Steffen Basho-Junghans
Maus Hábitos, Porto
10 Set 2004
Algo de muito estranho se passa quando numa semana estreiam em salas portuguesas filmes do Jackie Chan e do Jean-Claude Van Damme. Enquanto o primeiro dá a volta ao mundo em oitenta dias, o segundo, ainda com a mesma raiva desse clássico que dá pelo nome de Golpe de Vingança, enfrenta uma série de malfeitores de cara desfigurada numa prisão em Kravavi, na Rússia, depois de ter assassinado o homem que violou e matou a sua mulher. Nada de novo, portanto. De novo mesmo, só as ofertas do Maus Hábitos que contemplavam as estreias de Christina Carter e Steffen Basho-Junghans em palcos portugueses. E, mais uma vez, algo de muito estranho se passa quando a cinco minutos do início do espectáculo da metade fundadora dos Charalambides, uma das mais importantes “instituições” da música experimental e psicadélica norte-americana, a plateia era composta por cerca de uma dúzia de pessoas. Dá que pensar.

De guitarra na mão, Christina Carter partiu para uma série de canções que assentam na improvisação e na repetição de texturas e ambiências. A guitarra é o sustentáculo para a sua voz límpida, profunda, flutuante, soprada pelo vento, sustida pelos Deuses. As palavras reflectem as suas vivências, as suas memórias, as suas imagens mais nítidas: “I Remember When We Smiled, I Remember When We Smiled”. Por vezes, da profunda calma que as suas composições emanam, despontavam violentas erupções. E é nesse estranho balanço, entre os dois extremos que quase sempre se complementam, que reside a beleza da sua música. Beleza que tem na voz límpida e cristalina o seu espelho - o seu trabalho a solo é muitas vezes ligado a vozes como as de Patty Waters, Buffy Sainte-Marie ou até mesmo Yoko Ono. Dentro do espírito da improvisação e criação imediata, Christina Carter executou uma peça composta propositadamente para o concerto. O resto, só quem observou a calma que o seu rosto ostenta – com o evoluir do concerto, a assistência foi aumentando gradualmente - é que pode guardar. E não foi assim tão pouco.

Descrever a enormíssima actuação de Steffen Basho-Junghans sem referir, uma vez que seja, o nome de John Fahey, além de ser injusto seria pouco sincero – e Steffen Basho-Junghans sabe-o. Até no seu aspecto – barba comprida e barriga de quem não deve nada a ninguém – as semelhanças com Fahey são enormes. Entrou em palco e desde logo mostrou ser e estar bem humurado: espreitou a cidade do Porto por uma das janelas, gesticulou e esbracejou, brincou com o público e com a cadeira em que se ia sentar. Desde o primeiro momento, Steffen Basho-Junghans soube conquistar e tocar todos os presentes. A primeira peça que apresentou – plena em beleza, emotividade – está incluída num duplo álbum intitulado 7 Books, que foi editado recentemente pela Strange Attractors. Steffen Basho-Junghans descreveu essa mesma peça e contou que 7 Books fê-lo sentir como se fosse mesmo um livro, para sempre aberto, contendo segredos que permanecerão por revelar. A actuação continuou com peças que iam sendo construídas por guitarras acústicas de seis ou doze cordas de aço. Steffen Basho-Junghans usou e abusou do slide guitar, e mostrou diferentes formas de abordagem rítmica das guitarras: batidas com a mão, formas de tocar pouco habituais e uma sensibilidade invejável. A força das suas composições conquistou imediatamente a maioria dos presentes, e as formas de manifestação por parte do público eram as mais diversas. Infelizmente, algumas delas não deviam ocorrer perto de um local onde se pretende fazer arte. Com tantas salas disponíveis, há pessoas que insistem em falar e berrar enquanto se pretende tocar música. Independentemente disso, Steffen Basho-Junghans mostrou-se sempre afável, simples, brincalhão, disponível, uma pessoa boa. Muito boa. Anunciou a última música, levantou-se algumas vezes - foi sempre entusiasticamente aplaudido – e apresentou outras tantas canções. “Fandango, Mexico”, “Dancem”. Anunciou até um tema que, nas suas palavras, tinha um “fim à John Fahey”. E riu, brincando consigo mesmo. Pelas janelas podia-se ver o nevoeiro invadir pouco a pouco a cidade do Porto, mas a sensação que percorria a sala era a de uma palavra que na língua portuguesa não se encontra tradução à altura: Overwhelming. Puro génio.
· 10 Set 2004 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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