The Vicious Five
Clube Mercado, Lisboa
31 Out 2005
Há aqui alguém que não esteja a suar?”, pergunta Joaquim Albergaria, vocalista dos Vicious Five, a meio do concerto destes, vestido com uma camisa azul, gravata, uma insígnia a dizer “ELDER SKELTER” - joguinho com “Helter Skelter” dos Beatles, banda da qual o vocalista ostenta uma t-shirt de vez em quando ao vivo - e a cara e a barba toda pintada de branco e umas olheiras negras. Era difícil haver quem não estivesse a suar, tal era o calor dentro da sala (mesmo em noite de frio e chuva) e as doses de rock’n’roll injectadas pela banda. Entra-se no número 8 da Rua das Taipas, depois da esquadra de polícia, desce-se as escadas, passa-se pelas duas portas e entra-se na parte de baixo do Clube Mercado. Dá para ver que é a festa de Halloween: notam-se as decorações, teias de aranha falsas nas máquinas de imperial e luzinhas no equipamento da banda, entre outros pormenores, nomeadamente as poucas pessoas mascaradas. O som vai saindo das colunas, a selecção normal do mercado, tudo muito funky.

O espaço enche, o culto à volta da banda é visível e lá para a meia-noite e meia começa a actuação. Os Vicious Five estão vestidos todos de igual, tirando o vocalista, com camisas e gravatas pretas e as caras pintadas, quais The (International) Noise Conspiracy (banda com a qual, aliás, se pode traçar um paralelo, na transição sonora Refused-T(I)NC, do hardcore inteligente para o rock’n’roll intensamente dançável). Um dos guitarristas está na bateria e o baterista na guitarra e começam as versões de Misfits. Competentes, bem feitas, mas nada de transcendental (tradução: a banda está muito mais confortável a tocar os seus próprios temas). Trocam os instrumentos para a sua posição normal e lá começa tudo.

O som está demasiado alto e mau, mas algumas dúzias de minutos passadas desde o início com a alternância dos temas de Up on the Walls e dos Misfits isso já não interessa nada. É feito pelos putos para os putos e todos os putos se estão a divertir, e é feita uma cena à antiga, com mosh pit e crowd-surfing a rodos. Quem é que quer saber do mau som quando estão os pés de um tipo que nem conhecemos prestes a partir-nos os óculos? A dada altura até é pedido pela banda um circle pit que acaba por morrer à nascença. Para ser mais à antiga só faltava ser uma matiné e não uma noite.

Há a interacção com o público, as perguntas, a apresentação dos temas, há “Bad Mirror”, o quasi-êxito da banda que passa na Antena 3 e onde se grita “We got enough self-esteem / to have no self-esteem / there’s nothing beautiful here / we’re all ugly!”, há os falsetes, a interminável cascata de riffs, de refrões, de puro deleite rock'n'roll. Há “She” dos Misfits, sobre Patty “Tania” Hearst, a tal herdeira de milhões que foi raptada pelo Symbionese Liberation Army mas acabou por se tornar membro do mesmo. Há os “Hey hey” e “whoa-ho-ho-ho” de “Fallacies and Fellatio”, o solo de “The Smile on Those Daggers” (e aquele riff no refrão que há 2 ou 3 anos os poria no centro das atenções e nos tops ao lado dos Hives e outras bandas), o delírio sónico de “We Did The West, Let’s do the Rest”, o crowd-surfing intensifica-se, o vocalista salta do baixíssimo palco para o público, continua a gritar/cantar, quando acaba o tema pergunta: "Mas vocês estão parvos? Sou muito mais pesado do que vocês." Algures durante a actuação um dos guitarristas também faz o mesmo, continuando a tocar. A tinta nas caras escorre e desvanece-se com o suor. Há mais morto-vivo do que isso? (a ordem de eventos não é necessariamente esta, já que, para além do suor, os concertos de Vicious Five também envolvem outro líquido, um que vem da cevada).

Acaba, ou parece querer acabar, com “The Electric Youth”, o hino hardcore old-school, se bem que com um piscar de olhos aos At The Drive-In na parte instrumental do meio, desta feita com uma introdução em versão reggae/ska, com um bom trabalho de guitarra, que de alguma forma inexplicável pode ser ligada ao Halloween. “Me You, the Electric Youth” são os gritos ouvidos, eu e tu somos a juventude eléctrica e pouco mais há para dizer. Ainda voltam para um encore, com “Lipstick #5”, a canção de amor deles, com “French kissing amidst the fires / in love / in riot”, mas a coisa fica por aí, uma hora e pouco de intensidade e suor.

A noite continua com os Holy Calamity, duo DJ de D-Mars dos Micro (e um dos patrões da Loop:Recordings, editora dos Vicious Five) e Ricardo Manaia, que começa com “Thriller” de Michael Jackson, a canção perfeita para esta noite. Ainda passam um tema de Vicious Five, e o resto é dançar a noite inteira com bom gosto (a não ser nos dois temas de Black Eyed Peas ouvidos, ou talvez seja só embirração). Rock’n’roll, pinturas na cara, máscaras, bruxas, vampiros, zombies, Misfits, suor. É preciso mais alguma coisa?
· 31 Out 2005 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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